[[legacy_image_203072]] Um estudo da Universidade Federal de Pelotas (RS), em parceria com a Associação Brasileira de Saúde Coletiva e a organização de saúde pública internacional Vital Strategies, apontou que 64,9% dos brasileiros que contraíram covid-19 têm pelo menos uma sequela. Das 9 mil pessoas entrevistadas por telefone nas cinco regiões do Brasil, no primeiro trimestre deste ano, 30,4% relataram perda de olfato e/ou paladar. Depois de problemas musculares (25%) e cansaço (23,6%), 21,1% dos participantes relataram perda de memória, fator que tem intrigado especialistas. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Afinal, como um vírus que afeta principalmente o sistema respiratório pode causar danos neurológicos? Enquanto pesquisadores de todo o mundo se debruçam em estudos para tentar encontrar respostas para essa e outras questões acerca do SARS-CoV-2, o vírus causador da covid-19, os neurologistas têm atendido mais pacientes que relatam disfunções cognitivas, como perda de memória e dificuldades de concentração e raciocínio. “A porta de entrada para esse vírus é a via respiratória, mas ele é um vírus neurotrófico, tem afinidade pelo tecido nervoso do sistema neurológico. Chegando ao tecido nervoso, ele se alastra e o agride facilmente, causando complicações neurológicas que provocam danos visíveis ao cérebro, como inflamação, alterações vasculares e AVC (Acidente Vascular Cerebral)”, explica o neurologista Juarez Harding, coordenador da equipe de neurologia da Casa de Saúde de Santos. O médico ressalta, no entanto, que nem sempre os danos causados pelo vírus no cérebro são visíveis em exames. “Já conhecemos bastante sobre o vírus e as complicações, mas é tudo muito novo e, muitas coisas, o tempo vai mostrar.” Apesar de, em alguns casos, o comprometimento da memória recente ou da concentração ter relação com a covid-19, ele frisa que é preciso confirmar a causa do problema. “As pessoas estão mais esquecidas e, muitas vezes, associam à covid ou à vacina. Mas, na verdade, são transtornos psiquiátricos ou psicológicos. Cabe aos médicos distinguir quem são os que estão vivendo esses transtornos dos pacientes que têm complicações pós-covid neurológica. Se a pessoa já tiver um médico de confiança, um clínico geral, um neurologista ou um psiquiatra, deve fazer um diagnóstico diferencial para apontar onde está o problema.” Reabilitação cognitivaO neurologista Mauro Gomes Araújo, professor do Departamento de Neurologia do curso de Medicina da Universidade Metropolitana de Santos (Unimes), reforça a busca por respostas sobre a doença, seus efeitos e sequelas. O mais comum, diz, é que o comprometimento das funções cognitivas seja maior logo após a doença e, com o tempo, o quadro melhore. Mas, como a covid é uma doença nova e há poucos subsídios sobre como a forma longa evolui, não há como determinar se a sequela será permanente ou não. Nos casos em que o paciente não apresenta lesões severas, Araújo recomenda reabilitação cognitiva com um neuropsicólogo, para testes de estimulação das áreas cerebrais. “Também é importante saber, por exemplo, se houve alguma alteração metabólica, se o paciente ficou com anemia. Isso tem que ser investigado, checar o nível de vitamina B12, que, se estiver baixo, tem que tratar. Exames de imagem também podem ser necessários para ver se não houve um dano mais sério e afastar outras possiblidades”, observa. Como Juarez Harding, Mauro Araújo frisa que, usar medicação, só com recomendação médica, após diagnosticado o problema. “Não pode ficar só rotulando que foi a covid. Podem ser hipotireoidismo, baixa vitamina B12. Às vezes, a pessoa é diabética e descompensa o diabetes, que afeta o raciocínio. Aí, é a parte metabólica. Por isso, é preciso fazer uma avaliação individual.” Contabilista relata consequênciasO contabilista Antonio Pio Neto, de 54 anos, presidente do Conselho Municipal de Saúde de Praia Grande, viveu maus bocados após contrair covid-19, em novembro de 2020. Ficou quase cinco meses sem trabalhar, passou por cinco tratamentos, conviveu com muita dor e ficou 11 dias sem andar, dos quais sete também sem falar. “Foram 35 dias dormindo na sala, pois minha casa tem escada. Passou? Sim, mas vieram as sequelas, e uma delas foi a perda de memória, com esquecimento de nomes, lugares, histórias, datas, tudo bem conturbado. Quando voltei a trabalhar, (houve) milhões de mudanças, e não conseguia ler e assimilar um regramento, uma lei ou resolução. Pensa isto para um contador”, conta Pio, sobre o drama no pós-covid. Aos poucos, ele foi voltando à normalidade, mas, em junho passado, quando estava viajando com a esposa para Guarulhos (SP), ela dormiu no carro. “Deu um branco, e passei a entrada do Rodoanel”, diz o contador, que criou um método para ajudá-lo a não esquecer compromissos e fatos importantes da rotina. “Aprendi a anotar tudo, passei a usar agenda e bloco de notas. Enfim, esta doença é ruim, e as sequelas são assustadoras. Ganhei também o diabetes e não me adapto mais em lugares cheios e fechados.” Pio teve alta da pneumologista e mantém atendimentos com um cardiologista e um clínico geral para monitorar seu quadro. “Eu friso: fiz tudo pelo SUS (Sistema Único de Saúde), na rede pública de Praia Grande. Vou tomar a quarta dose de vacina contra a covid assim que melhorar da gripe.”