Os dados indicam que indivíduos com obesidade apresentam maior elevação de marcadores sanguíneos relacionados à neurodegeneração e à inflamação cerebral (Montagem sobre imagens Adobe Stock) Estudos publicados em periódicos científicos internacionais e indexados no PubMed, repositório oficial de pesquisas médicas dos Estados Unidos, indicam que o excesso de peso ao longo da vida pode estar associado a alterações em biomarcadores ligados à doença de Alzheimer, mesmo décadas antes do aparecimento dos primeiros sintomas clínicos. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! “O cérebro reage ao metabolismo do corpo de forma contínua. A obesidade crônica pode acelerar processos inflamatórios que prejudicam a função neuronal e aumentar o risco de doenças neurodegenerativas”, explica o médico nutrólogo Adriano Faustino, especialista em metabolismo e diretor da Sociedade Brasileira de Medicina da Obesidade. Os dados indicam que indivíduos com obesidade apresentam maior elevação de marcadores sanguíneos relacionados à neurodegeneração e à inflamação cerebral. São os casos do neurofilament light chain (NfL), proteína encontrada nos neurônios, que se em níveis elevados no sangue indicam dano neuronal precoce; e da proteína glial fibrilar ácida (GFAP), encontrada nas células gliais do cérebro. Quando em níveis altos no sangue, são indício de inflamação cerebral. “O Alzheimer não surge de repente. Ele é resultado de processos biológicos que podem começar décadas antes, e o excesso de gordura corporal atua como um acelerador desses mecanismos”, ressalta Faustino. O médico, porém, ressalta, que obesidade não significa correlação direta com o Alzheimer, ou seja, nem toda pessoa obesa irá desenvolver a doença. “O que vemos é um risco maior e um processo biológico mais acelerado”. Implicações Os resultados levantam hipóteses relevantes: o controle da obesidade poderia, no futuro, ajudar a reduzir o risco de demência ou retardar o início do declínio cognitivo. Estratégias potenciais incluem mudanças no estilo de vida, controle metabólico precoce e avaliação do impacto de medicamentos para obesidade sobre a saúde cerebral. “Do ponto de vista clínico, qualquer intervenção que melhore metabolismo, inflamação ou resistência à insulina tem potencial de proteger o cérebro. Mas ainda estão em curso estudos clínicos específicos para confirmar esses efeitos”. Resultados Pesquisas longitudinais, acompanhando milhares de adultos por 10 a 12 anos, analisaram dados metabólicos, composição corporal e biomarcadores cerebrais. Os resultados sugerem: a obesidade está associada ao aumento progressivo de marcadores de neurodegeneração, mesmo em pessoas cognitivamente normais; alterações inflamatórias sistêmicas e resistência à insulina podem atuar como ponte entre o excesso de gordura corporal e o cérebro; nem todos os biomarcadores clássicos do Alzheimer (como amiloide e tau) se alteram de forma uniforme, indicando que o processo é multifatorial.