Ignorar os sinais pode levar a quadros mais graves, como depressão perinatal, transtorno de ansiedade generalizada, pânico ou até pensamentos intrusivos (Rogério Soares / AT) A gestação é um período de intensas transformações físicas, hormonais e emocionais. Mas, para além da expectativa do nascimento e das mudanças no corpo, a saúde mental da gestante ainda é um tema que recebe pouca atenção, mesmo sendo fundamental para o bem-estar da mãe e do bebê. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), 1 em cada 4 mulheres grávidas sofre com sintomas de ansiedade ou depressão, especialmente em países em desenvolvimento. No Brasil, estudos da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) indicam que cerca de 27% das gestantes relatam sofrimento psíquico significativo durante a gravidez. Ignorar os sinais pode levar a quadros mais graves, como depressão perinatal, transtorno de ansiedade generalizada, pânico ou até pensamentos intrusivos relacionados à gestação e ao parto. Reconhecer os sintomas precocemente é o primeiro passo para um cuidado integral. Seis sinais de alerta para a saúde emocional na gravidez: Alterações de humor intensas e persistentes Oscilações de humor são comuns durante a gestação, principalmente nos primeiros e últimos trimestres. No entanto, quando a irritabilidade, a tristeza ou o choro frequente persistem por dias ou semanas sem motivo claro, pode ser um sinal de que algo mais sério está acontecendo. É importante observar a frequência e intensidade das emoções negativas, sobretudo se interferem na rotina ou nas relações pessoais. Ansiedade em excesso ou sensação constante de medo Preocupações com a saúde do bebê, o parto ou as mudanças na vida são naturais. Porém, quando esses pensamentos se tornam obsessivos, acompanhados de palpitações, insônia, dificuldade de concentração ou angústia, é possível que estejam associados a um quadro de ansiedade. A presença constante de medo ou insegurança, sem motivo concreto, exige atenção profissional. Dificuldade para dormir, mesmo com cansaço As mudanças hormonais podem impactar o sono, mas a insônia persistente, especialmente quando acompanhada de pensamentos acelerados ou sensação de “mente ligada”, é um alerta. Dormir pouco ou mal afeta o equilíbrio emocional, a imunidade e até a saúde do bebê, e pode indicar um quadro de estresse ou ansiedade mais intenso. Isolamento social e perda de interesse por atividades prazerosas O afastamento de amigos e familiares, a falta de vontade de conversar ou interagir, e a apatia em relação a atividades antes prazerosas, como ouvir música, sair ou cozinhar, são sinais que não devem ser minimizados. O desinteresse pela gravidez em si, como não querer preparar o enxoval ou evitar falar sobre o bebê, também pode indicar um processo depressivo. Sentimento de culpa constante e autocrítica elevada Algumas gestantes experimentam um padrão de pensamento caracterizado por culpa exagerada e autocrítica severa — como se não estivessem fazendo o suficiente, se sentissem “inadequadas” ou preocupadas em decepcionar os outros. Esse tipo de pensamento pode impactar a autoestima e favorecer transtornos emocionais, especialmente em quem já tem histórico de depressão. Pensamentos negativos repetitivos ou intrusivos Ter pensamentos negativos durante a gestação não é incomum. Mas quando eles são frequentes, perturbadores ou fora de contexto, como imaginar que algo ruim vai acontecer o tempo todo, ou temer ser incapaz de cuidar do bebê, é necessário investigar. Esses pensamentos podem indicar transtornos de ansiedade ou início de uma depressão perinatal, e precisam ser acolhidos com orientação adequada. O impacto da saúde emocional da mãe no bebê Diversas pesquisas mostram que o estado emocional da gestante influencia diretamente no desenvolvimento do bebê. Altos níveis de estresse e ansiedade durante a gestação estão associados a: Risco aumentado de parto prematuro; Bebês com baixo peso ao nascer; Maior propensão da criança desenvolver ansiedade na infância; Complicações no vínculo mãe-bebê no pós-parto. Cuidar da saúde emocional durante a gestação é também um ato de cuidado com o bebê desde o útero. Quando buscar ajuda? Não é preciso esperar o quadro se agravar para procurar auxílio. Sinais persistentes por mais de duas semanas já são indicativos de que a gestante deve conversar com seu obstetra e, se necessário, ser encaminhada para um psicólogo ou psiquiatra. As unidades básicas de saúde do SUS oferecem apoio psicológico para gestantes, e há também redes privadas que trabalham com planos acessíveis de psicoterapia. Em casos mais graves, a intervenção medicamentosa pode ser recomendada, sempre com acompanhamento médico especializado. Estratégias que ajudam no cuidado emocional durante a gestação Manter uma rede de apoio ativa (família, amigas, grupo de gestantes); Praticar exercícios físicos leves, com liberação médica; Reservar momentos para o autocuidado e descanso; Participar de grupos de preparação para o parto ou rodas de conversa; Evitar o excesso de notícias negativas ou sobre partos traumáticos.