O olhar cuidadoso sobre o que ocorre no ambiente de trabalho, em especial à saúde mental dos colaboradores, ganhou um importante impulso desde o dia 26 de maio, com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que reforça a possibilidade de fiscalização e aplicação de multas. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! A preocupação é pertinente diante de números da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Segundo e entidade, mais de 840 mil pessoas morrem todos os anos no mundo por problemas de saúde ligados a riscos psicossociais no trabalho, como jornadas longas, assédio e insegurança no emprego. “A proposta não é apenas reduzir acidentes físicos, mas também identificar e controlar fatores organizacionais que possam gerar adoecimento emocional, estresse excessivo, ansiedade, esgotamento profissional (burnout), conflitos interpessoais e outras consequências que afetam a saúde mental”, afirma o especialista em relações do trabalho Roberto Martins. Para ele, a NR-1 representa uma oportunidade para que as organizações evoluam de uma cultura focada exclusivamente em resultados para um ambiente que compreenda que pessoas saudáveis, respeitadas e valorizadas são o principal ativo para o crescimento sustentável. “Algumas formas pelas quais a NR-1 contribui para essa transformação são o estímulo à prevenção em vez da correção, fortalecimento da cultura do cuidado, desenvolvimento de lideranças mais humanizadas, promoção da responsabilidade compartilhada, redução de práticas de gestão tóxicas, incentivo à escuta ativa dos colaboradores e contribuição para a sustentabilidade do negócio”, enumera Martins. Escala 6x1 O especialista cita um outro elemento que deve mexer com a rotina dos trabalhadores em breve: o fim da escala 6x1, aprovada pela Câmara, em pauta no Senado e que tem sido questionada devido aos impactos que pode causar na qualidade de vida do trabalhador. “Jornadas extensas, pouco tempo para descanso, convivência familiar reduzida e dificuldades para conciliar vida pessoal e profissional podem aumentar o desgaste físico e psicológico, refletindo diretamente na motivação, produtividade e bem-estar”, cita. Nesse contexto, entende ele, a NR-1 contribui ao exigir que as empresas avaliem fatores como excesso de cobrança, metas abusivas, sobrecarga de trabalho, assédio moral, falta de autonomia, comunicação inadequada e organização deficiente das atividades. “No âmbito da Justiça do Trabalho, as ações e processos só traziam casos envolvendo verbas, acidentes e questões técnicas. Até que notou-se um aumento cada vez mais crescente de casos envolvendo questões de ordem comportamental, psicológica e casos cada vez mais sérios envolvendo o assédio moral no ambiente profissional, crê Martins. Gerenciamento de riscos Outro ponto citado é que a NR-1, ao incluir os riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR), tem potencial para promover uma mudança significativa na mentalidade das lideranças e da gestão de pessoas. “Isso ocorre porque a saúde mental deixa de ser tratada apenas como uma questão individual e passa a ser reconhecida como uma responsabilidade organizacional”, avalia. Ele defende que os resultados dependerão do comprometimento das organizações em implementar ações efetivas, capacitar lideranças, promover uma cultura de respeito e monitorar continuamente os fatores de risco psicossocial. “Quando aplicados de forma séria e estratégica, os princípios da NR-1 e a reflexão sobre modelos de jornada de trabalho podem contribuir significativamente para evitar situações que prejudiquem o colaborador não apenas em sua vida profissional, mas também em seus relacionamentos, equilíbrio emocional, saúde física e qualidade de vida”, encerra Martins.