(Adobe Stock) Os robôs podem ser utilizados na sequência produtiva de diversos setores, como fabricação e aplicação de processos industriais. De acordo com o relatório da Mordor Intelligence de 2020, no ano anterior - ou seja, antes da pandemia de covid-19 -, o Brasil contava com apenas nove robôs instalados a cada mil funcionários. “Segundo dados da Federação Internacional de Robótica (IFR), a densidade robótica no País (ou seja, o número de robôs por 10 mil trabalhadores na indústria) é considerada baixa em comparação a países como Alemanha ou Coreia do Sul. No entanto, em algumas áreas industriais brasileiras, a automação com robôs já é realidade consolidada — especialmente em empresas de grande porte”, afirma Luis Fernando Bueno Mauá, engenheiro da Computação e professor da Unisanta no curso de Sistemas de Informação e Análise de Desenvolvimento de Sistemas. Os robôs podem ser utilizados principalmente em aplicações como soldagem, pintura, montagem, desmontagem, coleta e colocação, embalagem e etiquetagem, paletização, manuseio de materiais e transporte de mercadorias. “Na indústria pesada, os robôs são utilizados na mineração e construção para tarefas com maior grau de periculosidade ou dificuldade do trabalho humano”, completa Márcio Guerra, superintendente do Observatório Nacional da Indústria, hub de dados e inteligência da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Embora o Brasil ainda não seja potência no assunto, vem avançando nos últimos anos em setores estratégicos e regiões com maior desenvolvimento tecnológico. É o caso do Estado de São Paulo. Exemplos O setor automotivo é o que mais se destaca no uso de robôs no Brasil. As principais montadoras que atuam no país, como Volkswagen, Toyota, Fiat, General Motors e Honda, utilizam robôs em diversas etapas da linha de produção. “Um exemplo é a planta da Volkswagen em São Bernardo do Campo, onde mais de mil robôs trabalham realizando soldas de alta precisão nas carrocerias dos veículos, pintura automatizada e montagem de componentes. A Toyota, em Sorocaba, também adotou robôs com sensores inteligentes que ajudam a detectar falhas nos processos em tempo real”, detalha Mauá. Além do setor automotivo, a indústria metalúrgica e siderúrgica brasileira também se destaca. “A Gerdau utiliza robôs industriais para cortar barras de aço incandescentes, operar máquinas pesadas e manipular materiais em alta temperatura, protegendo os trabalhadores de riscos físicos graves”, explica. Outra área que vem adotando robótica é a indústria de alimentos e bebidas, casos da Nestlé e da Ambev. “Na fábrica da Nestlé em Caçapava (SP), os robôs conseguem ajustar automaticamente o tamanho das embalagens com base no volume do produto. Já na Ambev, robôs realizam tarefas de inspeção visual usando câmeras com inteligência artificial para identificar garrafas com falhas”, detalha Mauá. O setor farmacêutico também tem usado. “A empresa EMS utiliza robôs para o envase de medicamentos e transporte automatizado de materiais em áreas limpas e selagem de blisters (cartelas de comprimidos)”, afirma o engenheiro da Computação. Outra área em expansão é a da logística e distribuição. “Grandes empresas do varejo, como Magazine Luiza, estão implementando sistemas robotizados. No centro logístico de Louveira (SP), há robôs autônomos que percorrem corredores transportando produtos para as estações de separação de pedidos, otimizando tempo e diminuindo erros”. Empregos Embora os robôs estejam assumindo tarefas repetitivas, perigosas ou de alta precisão, a função humana continua sendo essencial, observa o engenheiro da Computação, Luis Fernando Bueno Mauá. "A tendência atual é a da automação colaborativa, onde robôs e humanos trabalham lado a lado. Os profissionais deixam de realizar atividades operacionais e passam a atuar no monitoramento, programação, manutenção e supervisão dos sistemas automatizados. Isso exige uma requalificação da mão de obra, com foco em competências técnicas, criatividade, pensamento crítico e resolução de problemas. Em vez de eliminar empregos, os robôs tendem a transformar as funções humanas dentro do ambiente industrial", explica. Quatro países lideram movimento O uso de robôs na indústria internacional se encontra em um estágio bastante avançado. Dentre os países que investiram fortemente em automação inteligente e que lideram esse movimento, destacam-se Japão, Coreia do Sul, Alemanha e China, afirma o engenheiro da Computação Luis Fernando Bueno Mauá. “As funções mais comuns desempenhadas por robôs nesses países são soldagem automatizada (em carrocerias de veículos e estruturas metálicas), montagem de componentes (especialmente em eletrônicos), inspeção e controle de qualidade (detectam falhas mínimas em placas de circuito ou superfícies pesadas), manuseio de materiais pesados (em setores como siderurgia e construção de máquinas) e pintura (de carros, móveis e eletrodomésticos) e acabamento de peças”, detalha. Além dessas potências já consolidadas, uma nova onda de países emergentes têm acelerado a adoção de robôs industriais como estratégia para aumentar a produtividade e competir globalmente: Índia, México, Vietnã, Tailândia, Polônia e República Checa. “Na Índia, a Tata Motors implementou robôs colaborativos nas fábricas de Pune (cidade do país) para melhorar a segurança e eficiência dos operadores humanos, reduzindo o índice de acidentes”, exemplifica Mauá. Já no México, a BMW instalou 800 robôs industriais em sua planta de San Luis Potosí para operações de montagem e verificação de qualidade com inteligência artificial (IA). “No caso de Vietnã e Tailândia, esses países se tornaram destinos de empresas que buscam diversificar suas cadeias de suprimentos fora da China, impulsionando a automação nas fábricas locais. Um exemplo prático está na Samsung Electronics Vietnã, que implantou robôs para montar smartphones e tablets, com processos que antes exigiam centenas de operadores humanos”, detalha o engenheiro da Computação. Por fim, Polônia e República Checa estão atraindo, dentro da Europa, montadores e fabricantes que buscam reduzir custos em relação à Alemanha. Com isso, os investimentos em robôs crescem rapidamente. “A Skoda Auto, na República Checa, implantou robôs Kuka para manuseio de peças grandes e pesadas em ambientes industriais, reduzindo o esforço humano e aumentando a precisão”, exemplifica Mauá. Potências no assunto Japão: pioneiro na robótica industrial e continua sendo referência global. Grandes empresas como Toyota, Honda, Fanuc e Yaskawa utilizam robôs em suas fábricas há décadas. O país também se destaca no desenvolvimento de robôs colaborativos (cobots) — robôs projetados para trabalhar lado a lado com humanos de forma segura. Coreia do Sul: tem a maior densidade de robôs por trabalhador do mundo, com cerca de 1.000 robôs a cada 10.000 trabalhadores na indústria de manufatura, segundo a Federação Internacional de Robótica. Alemanha: sinônimo de Indústria 4.0, com uma abordagem integrada de automação, internet das coisas (IoT), inteligência artificial e robótica. China: hoje é o maior mercado consumidor de robôs industriais do mundo, com investimentos governamentais bilionários em automação para manter sua liderança na produção mundial. Robôs colaborativos, um futuro mais presente Uma das principais tendências para o futuro da robótica no Brasil é a popularização dos cobots, ou robôs colaborativos, prevê o engenheiro da Computação Luis Fernando Mauá. “Diferentemente dos robôs industriais tradicionais — que operam isolados em áreas restritas por questões de segurança —, os cobots são projetados para trabalhar lado a lado com os humanos, dividindo o mesmo espaço de forma segura. Eles possuem sensores inteligentes e sistemas de parada automática que evitam colisões e garantem a segurança do operador”, explica. No Brasil, há casos de indústrias do Interior de São Paulo, por exemplo, que já utilizam cobots para auxiliar operadores humanos na fabricação de móveis planejados, realizando o furo e o corte de painéis de madeira com precisão e sem esforço físico excessivo. Na indústria eletrônica, pequenos fabricantes usam cobots para posicionar componentes em placas de circuito impresso e realizar testes de funcionamento automatizados, liberando os técnicos humanos para tarefas de maior valor intelectual. Além da robótica colaborativa, outros setores no Brasil têm mostrado grande potencial para a aplicação de robôs nos próximos anos. Um deles é o agronegócio, onde a automação vem se expandindo com o uso de tratores autônomos, drones agrícolas e robôs de inspeção e colheita. “A tendência é o uso de robôs inteligentes que possam plantar, irrigar e colher com base em dados climáticos e sensores de solo, reduzindo desperdícios e aumentando a produtividade no campo”, afirma. Custo Um fator restritivo para o futuro da aquisição e uso dos robôs nas indústrias brasileiras está ligado ao custo, afirma o superintendente do Observatório Nacional da Indústria, Márcio Guerra. “A integração de robôs com tecnologias avançadas é um desafio para os próximos anos, pois os custos de um sistema robótico estão associados com um hardware robusto e eficiência de software. Além disso, um sistema totalmente automatizado pode custar milhões de dólares para design, fabricação e instalação”, argumenta. Por outro lado, lembra Guerra, os crescentes custos com mão de obra, decorrentes de regulamentações governamentais, desequilíbrios na oferta e demanda, além de escassez de mão de obra qualificada, têm contribuído para que empresas estejam recorrendo a soluções automatizadas como uma opção mais econômica. “O crescimento do mercado parece ter sido impactado positivamente pela crescente preocupação do governo em promover pesquisa e desenvolvimento em robótica, visando fortalecer a capacidade tecnológica do País e reduzir sua dependência de importações”, afirma.