(Vinicius Loures/Câmara dos Deputados e Divulgação/Abiquim) A indústria que já foi a terceira em competitividade mundial e é base para todas as demais indústrias de transformação hoje tem 40% de sua capacidade ociosa e responde por apenas 50% de tudo que é consumido no Brasil. Crescente aumento das importações de produtos químicos, falta de políticas de competitividade industrial, custos elevados de energia e matérias-primas comprometem a competitividade da indústria química, que enfrenta a concorrência da China, Estados Unidos e Alemanha. Na outra ponta, é a maior pagadora de tributos no País, acima de R\$ 40 bilhões por ano, e emprega dois milhões de trabalhadores diretos e indiretos, Nesta entrevista, o presidente da Abiquim fala sobre o que vem sendo proposto pelo setor ao Governo e ao Congresso para que a indústria química volte a investir em novas plantas, justifique os recursos brasileiros na transição energética e possa fazer o País diminuir sua dependência do mercado internacional. Que posição o Brasil ocupa no mercado global da indústria química? Qual a fatia de mercado? Ocupa a quarta ou a quinta posição, a depender do que se considera. Se considerar a Europa como um todo, o Brasil é o quinto na indústria química. Se considerar país a país, passa a ser o quarto no mercado global, depois de China, Estados Unidos e Alemanha, segundo dados do Conselho Internacional das Associações da Indústria Química. É um mercado que gira em torno de US\$ 6 trilhões no mundo e só a China tem metade disso. De quanto é a capacidade ociosa do Brasil? E da China? No Brasil, em torno de 40%. Na China, 50%, mas porque eles investiram muito além do que o mercado mundial tem capacidade de absorver. Para que a China desse conta de utilizar toda sua capacidade, seria necessário conquistar mercados inteiros, não deixando espaço para nenhum outro produtor. Por exemplo, a ociosidade da China na produção de PVC é cinco vezes o tamanho do mercado brasileiro. Mas para a China ter feito todo esse investimento, mesmo sabendo que haveria ociosidade, é porque está apostando na conquista desse mercado. Sim, exatamente. É a estratégia de um monopolista, mas não por acreditar que o mercado vai crescer, e sim de que vai tirar dos outros produtores a parte que hoje eles têm. E isso alterna muito a dinâmica de mercado mundial. Por exemplo, no mercado petroquímico mundial, os investimentos sempre foram feitos com base na previsão de crescimento do consumo em determinado tempo. Investe-se prevendo que o mercado vai crescer. Os investidores não pensavam na lógica de deslocar fatia do mercado dos outros (market share) e isso regulava um pouco o mercado, porque os investimentos eram feitos considerando os ciclos de crescimento da demanda. Atualmente, estamos há uma década em um ciclo de baixa; Por quê? Porque a China decidiu investir desconsiderando esses fluxos da indústria, e as margens da petroquímica estão muito baixas. No caso da China, até negativas. Há uma estimativa nas centrais petroquímicas chinesas que indicam margem até US\$ 200 negativa por tonelada por conta dessas decisões que tomaram. E porque estão apostando em ganhar mercado dos concorrentes. Sim, estão apostando na tomada dos mercados, especialmente Japão, Coreia, os produtores europeus e o Brasil. Só para fazer um recorte: de 2023 para 2024, a China cresceu 19% na produção e venda, a Russia cresceu 8%, a Índia cresceu 1%, Estados Unidos ficaram estáveis, Japão caiu 9,3%. Coreia decresceu 7,5%, Brasil e Europa decresceram 6% na produção. A China está tomando a produção dos outros mercados. Por que os EUA ficaram estáveis? Porque erguem grandes barreiras tarifárias para os produtos importados, e isso não é de agora. Já em 2016 elas existiam e eram maiores que 30%. Em janeiro e fevereiro, elevaram para 50%. Para um produto químico chinês entrar nos Estados Unidos, tem que enfrentar uma tarifa de 50%. Diante desse cenário, o que faria a indústria química brasileira ser mais competitiva internamente, já que todas as demais indústrias precisam de químicos em seus processos e o setor no Brasil tem tamanha ociosidade? São muitos fatores. Veja, por exemplo, o custo da energia é quatro vezes maior que nos Estados Unidos.... Mas em 2023 o Governo lançou o programa Gás para Empregar, para alavancar a indústria brasileira por meio de oferta maior de gás natural, que para a química representa um insumo importante. Esse programa não está funcionando? Ainda não produziu efeitos práticos. Para produzir efeito, é preciso que as medidas que foram anunciadas no decreto do final de 2024 sejam eficazes. Para isso, é necessário que a EPE (Empresa de Pesquisa Energética) avance no trabalho de mapeamento dos custos de escoamento e processamento do gás natural e que a ANP (Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) produza resoluções no sentido de regular o mercado de infraestrutura de escoamento, processamento e transporte de gás natural de forma mais adequada</CW>. O cenário da indústria química é preocupante, então. Muito. Só não é pior que em 2023, quando o Gás para Empregar foi lançado, porque no final de 2023 tivemos a retomada do Reiq (Regime Especial da Indústria Química), que estava paralisado desde julho de 2022. Mesmo assim, não voltou aos patamares anteriores, com o mesmo nível de redução do PIS/Cofins, por exemplo. De outro lado, o governo também tomou medidas de defesa comercial: elevou provisoriamente as tarifas de 30 grupos de químicos para importação. Tudo isso deu uma segurada a partir do final do ano passado. Hoje, quanto representa a importação de produtos químicos em detrimento da indústria nacional? Metade do que é consumido vem de fora. É muita coisa para um <CW-29>país que tem 40% de capacidade ociosa. E isso não é um problema só para nós, da indústria, mas para o cidadão brasileiro também, na medida em que a química está em tudo: da roupa que a gente veste aos produtos que embalam os alimentos. Quanto mais a gente importa, mais sujeito às crises internacionais ficamos. Se a China acorda de mau humor um dia, ou os Estados Unidos - e ambos têm metade do mercado mundial - o resto do mundo vai sofrer. Se eles acordam de mau humor, o Brasil vai ter que recorrer ao que hoje está ocioso, não? Mas não é de imediato assim. Além disso, já estamos vendo o fechamento de fábricas. Por exemplo, um selante de argamassa, que tinha uma unidade forte na Bahia, fechou; uma unidade que a Rhodia tinha em Paulínia fechou, unidades da Yara Fertilizantes também. O que a Abiquim tem feito no Congresso ou junto ao governo para melhorar esse quadro? Primeiro, revisando todas as formas de avanço do programa Gás para Empregar. Tem que avançar para reduzir o preço do gás natural. Na verdade, não é nem o custo do gás, mas de toda a infraestrutura de transporte e refino do gás natural. Não é caro produzir gás na plataforma, o que encarece é todo o sistema de transporte, refino... Há uma discussão de que reduzir a reinjeção de gás natural nos poços vai reduzir a produção de petróleo, mas não creio nisso. Ninguém colocou esse número às claras. Além disso, há campos novos de exploração no País. Enquanto isso não acontece, vamos dependendo de 50% dos químicos que vêm de fora e ficando sujeitos às oscilações e intempéries do mercado internacional. Por isso temos lutado tanto para erguer barreiras regulatórias e fazer o governo entender que o nível tributário que ele pode aplicar sobre a indústria química precisa considerar esse cenário. Não adianta eu aplicar sobre a indústria química o mesmo nível tributário da indústria de alimentos ou de tintas, por exemplo, que não têm muito comércio internacional, sobre commodities petroquímicas. Se continuar tirando dividendos, porque tributo é uma espécie de dividendo, nessa proporção vai quebrar. O Estado brasileiro tem que entender isso, do contrário, daqui quatro ou cinco anos não vai existir mais nada. O Brasil tem tratado bastante do tema transição energética para uma matriz mais limpa. Como está esse debate dentro da indústria química? Para você fazer transição energética, precisa ter um demandante de energia, e quem são os demandantes de energia na indústria brasileira? Alumínio, aço, químico, celulose, vidro... Ou seja, indústria de base, que responde por 65% do consumo de energia. Então, para que fazer a transição se parte desses setores está recuando, como a química, o alumínio, o vidro, o aço? A transição energética tem que estar colada com a demanda por energia, e não está. Então, de novo: precisa fortalecer os setores que mais consomem energia para sustentar o esforço da transição energética. Por isso nossa bandeira de reduzir custos para a indústria química - e outros setores que estão perdendo competitividade devem ter o mesmo discurso - em benefício do crescimento. O programa que eu estou apresentando para o Congresso é substituir o Reiq, manter a plataforma de ativos existente, fortalecer sua capacidade competitiva aplicando uma carga tributária um pouco mais baixa e, ao mesmo tempo, criar um mecanismo para incentivar o investimento em plantas, sua eletrificação, aquisição de matéria-prima renovável, mudanças que podem ser feitas em um ativo que está rodando de forma competitiva e rentável. Precisa encaixar as duas pontas, mas o que estamos vendo é que os incentivos só estão sendo dados para o setor de energia.