Segundo os investigadores, o esquema consistia em receber os valores das apostas em reais e enviá-los ao exterior sem autorização do Banco Central (Imagem criada por Inteligência Artificial (IA)) A Polícia Federal (PF) e a Receita Federal identificaram um esquema em que a casa de apostas Pixbet teria usado CPFs de 549 pessoas mortas, empresas offshore e uma rede de “laranjas” para enviar dinheiro ao exterior e depois trazer os recursos de volta ao Brasil com aparência de legalidade. Segundo as investigações, cerca de R\$ 1,5 bilhão teria sido movimentado de forma irregular nos últimos cinco anos. A operação foi deflagrada na quinta-feira (13) e teve como principais alvos o empresário Ernildo Junior, proprietário da Pixbet, e o advogado Nelson Wilians. Ao todo, a PF cumpriu 17 mandados de busca e apreensão em cinco estados. A Justiça também autorizou o bloqueio de bens que podem chegar a R\$ 1 bilhão. Segundo os investigadores, o esquema começava com o recebimento, em reais, de valores relacionados às apostas. O dinheiro era então enviado ao exterior sem autorização do Banco Central e sem a formalização dos contratos de câmbio exigidos. Depois, os recursos retornavam ao Brasil e eram usados pelo grupo. Dessa forma, segundo a investigação, o dinheiro ganhava uma aparência de legalidade, o que dificultava o trabalho dos órgãos de fiscalização. As investigações apontam ainda que o grupo utilizava documentos de respaldo cambial, conhecidos como ACAMs, em nome de 549 pessoas que já haviam morrido. Algumas delas estavam mortas havia mais de 20 anos. Também eram realizadas operações simultâneas de compra e venda com valores idênticos para simular transferências internacionais. Apesar dos registros, segundo a PF, o dinheiro permanecia no Brasil. Laranjas e patrimônio de alto valor A investigação aponta ainda que familiares e outras pessoas eram usados como “laranjas” para esconder os verdadeiros donos de empresas e bens. A irmã de Ernildo Junior, Morgana Maria de Farias Santos, é apontada pela PF como uma “laranja consciente”. Segundo os investigadores, os dados dela estavam ligados a diversas empresas que, na prática, seriam controladas pelo empresário. A PF também afirma que parte do patrimônio obtido com os supostos crimes teria sido escondida por meio de uma mistura de bens e recursos envolvendo o escritório Nelson Wilians Advogados. Entre os bens bloqueados pela Justiça está o chamado “Betcóptero”, um helicóptero Airbus EC130 T2 avaliado em aproximadamente R\$ 30 milhões. Segundo a investigação, a aeronave foi adquirida pelo escritório de advocacia depois de ter sido utilizada por empresas ligadas a Ernildo Junior. A Justiça também determinou o bloqueio de um jato Phenom 100, fabricado pela Embraer e operado pelo grupo Pixbet. De acordo com a investigação, os registros de propriedade da aeronave estão ligados a empresas de fachada e ao escritório de Nelson Wilians. Veículos de luxo, incluindo um Porsche, também foram alvo das medidas judiciais. Apoio político na Paraíba Além das suspeitas investigadas pela PF, o grupo ligado à Pixbet tem atuação política na Paraíba. O comando da empresa apoia publicamente pelo menos seis candidatos a cargos eletivos nas eleições de 2026 no estado. Entre os nomes apoiados estão Cícero Lucena (MDB), indicado pelo partido para disputar o Governo da Paraíba, e Nabor Wanderley (Republicanos), ex-prefeito de Patos e pai do presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos). Ernildo Junior entrou mais diretamente na política nas eleições municipais de 2024. Na ocasião, apoiou Michel Alexandre Pereira Marques (União), então funcionário seu, na disputa pela Prefeitura de Serra Branca, município do Cariri paraibano com cerca de 13,6 mil habitantes. Alexandre venceu a eleição com apoio de Ernildo, que passou a trabalhar para aproximar lideranças políticas da região do município. A campanha também contou com o apoio do senador Efraim Filho (União), integrante da chamada “bancada das bets” no Congresso, e de Antonio Rueda, presidente nacional do partido. Para as eleições de 2026, porém, Ernildo se afastou politicamente de Efraim e passou a apoiar Cícero Lucena (MDB), ex-prefeito de João Pessoa por três mandatos. Em abril deste ano, Ernildo e Alexandre receberam Cícero Lucena em Serra Branca para uma agenda pública. Os três participaram de uma entrevista à rádio Independente FM Cariri, que apresentou o proprietário da Pixbet como alguém que havia “sonhado com a vitória de Alexandre nas urnas”. Questionado se o encontro representava seu apoio ao emedebista, Ernildo respondeu que sim. “Com certeza. Além de apoio, aqui tem gratidão. Você pode contar comigo, você sabe disso”, afirmou o empresário, enquanto abraçava o pré-candidato. Dias depois, durante as comemorações dos 67 anos de emancipação política de Serra Branca, Ernildo e Alexandre receberam Nabor Wanderley, pai de Hugo Motta, e manifestaram publicamente apoio à candidatura dele ao Senado. O grupo ligado à Pixbet também apoia o senador Veneziano Vital do Rêgo (MDB), que concorre à reeleição. Nesse caso, as manifestações de apoio aparecem por meio do prefeito de Serra Branca. Conhecido como Alexandre Pixbet desde antes de entrar na política, o prefeito é visto por integrantes da classe política da região como alguém próximo de Ernildo Junior e de sua confiança.