O Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE), uma das principais modalidades de financiamento imobiliário, que utiliza recursos da caderneta de poupança, passa por um momento de destaque, especialmente após o aumento do valor máximo do imóvel financiado pela linha, que foi de R\$ 1,5 milhão para R\$ 2,25 milhões. Apenas no primeiro trimestre, os financiamentos imobiliários com recursos da poupança somaram R\$ 42,4 bilhões, resultado 11,9% maior que o registrado no mesmo período do ano passado, de acordo com a Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip). Até o ano passado, 65% dos depósitos da poupança precisavam, obrigatoriamente, ser aplicados pelos bancos em crédito imobiliário, 20% eram depositados compulsoriamente no Banco Central e 15% tinham livre aplicação. Esse modelo, contudo, limitava a expansão do crédito em momentos de queda nos saldos de poupança — situação que reflete o cenário atual do mercado financeiro. A alteração permite uma elevação gradual para que 100% dos recursos provenientes dos saldos da poupança possam ser utilizados em crédito imobiliário. Para o diretor regional do Sindicato da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP), Lucas Teixeira, a realidade do financiamento imobiliário hoje ainda é desafiadora. Especialmente em regiões como a Baixada Santista, onde existe uma combinação muito particular entre alta demanda, limitação territorial para expansão urbana, elevado custo dos terrenos e forte pressão sobre a infraestrutura e a legislação urbanística. “O financiamento tem um peso absolutamente central para o setor da construção civil. Atualmente, boa parte das vendas depende diretamente da capacidade de crédito da população”, afirma. “Quando os juros sobem, o impacto é imediato: reduz-se o poder de compra das famílias, aumenta-se o valor das parcelas mensais e diminui a velocidade de vendas dos empreendimentos”, completa ele, citando que o Minha Casa, Minha Vida responde hoje por metade dos financiamentos imobiliários. Em algumas regiões chega a 55% dos contratos. Para ele, na Baixada Santista, isso se torna ainda mais sensível, porque trabalha-se com um mercado de valor médio relativamente elevado em cidades como Santos, principalmente nos bairros mais valorizados e nas regiões próximas à orla. Muitas vezes, pequenas oscilações nas taxas já excluem uma parcela importante dos compradores do financiamento bancário. “As taxas do financiamento imobiliário acompanham a tendência da Selic, mas não de forma automática nem na mesma velocidade. Existe uma correlação clara: quando ela sobe, o crédito imobiliário encarece. Quando começa a cair, há uma tendência de redução das taxas. Porém, o repasse ao consumidor normalmente é mais lento”, afirma ele. (Reprodução) Opções De acordo com a Caixa, nas modalidades com recursos do SBPE, estão ativas linhas de financiamento no âmbito do Sistema Financeiro da Habitação (SFH, para imóveis com valor de avaliação até R\$ 2,25 milhões) e por meio do Sistema de Financiamento Imobiliário (SFI, para imóveis com valor de avaliação acima de R\$ 2,25 milhões), com as respectivas taxas efetivas anuais. As linhas de crédito para aquisição de imóvel residencial pelo SBPE atreladas à TR oferecem prazos de até 420 meses (confira as opções no quadro). O banco explica ainda que possui uma linha destinada a reforma de imóveis, com recursos do SBPE na modalidade Taxa Fixa, com taxa de juros mensal a partir de 1,34% ao mês e prazo de até 180 meses. No caso do programa Minha Casa, Minha Vida, as condições de financiamento são as seguintes: renda até R\$ 13 mil, entrada mínima de 20% do valor do imóvel, taxa de juros nominal de 10% ao ano e prazo de até 35 anos para pagar Balanço da Abecip é o melhor em cinco anos O crédito imobiliário com recursos da poupança SBPE movimentou R\$ 18,5 bilhões em março deste ano, alcançando o melhor resultado mensal dos últimos cinco anos e o quarto maior da série histórica, conforme dados da Abecip. O montante representa alta de 56,9% em relação a fevereiro e avanço de 53,9% na comparação com março do ano passado. O número de imóveis adquiridos via SBPE também registrou forte crescimento no período. Foram 54,6 mil unidades financiadas nas modalidades de aquisição e construção, volume 55,5% superior ao de fevereiro e 59,2% maior do que o observado no mesmo mês do ano passado. O desempenho foi o quarto melhor já registrado para um único mês. No acumulado do primeiro trimestre, 125,5 mil imóveis receberam financiamento, crescimento de 15,7% frente ao mesmo período de 2025. Mesmo com os resultados positivos recentes, o acumulado de 12 meses aponta desaceleração. Entre abril de 2025 e março de 2026, os financiamentos somaram R\$ 160,8 bilhões, retração de 13,5% em relação aos 12 meses anteriores. Já o total de imóveis financiados caiu 12,7%, chegando a 474,7 mil unidades. As operações com recursos livres (empréstimo sem regras do governo ou destinação obrigatória) também avançaram em março. O volume financiado atingiu R\$ 2,01 bilhões, altas de 47,7% sobre fevereiro e 19,7% na comparação anual. Foram financiados 11 mil imóveis, elevação de 39,2% no mês e de 13,1% em 12 meses. Por outro lado, a caderneta de poupança continuou registrando retirada líquida de recursos. Em março, o saldo negativo foi de R\$ 9,1 bilhões, mesmo nível registrado em igual período do ano anterior. No trimestre, as saídas líquidas alcançaram R\$ 31,97 bilhões. O saldo total das cadernetas encerrou março em R\$ 748,6 bilhões, quedas de 0,59% sobre fevereiro e 0,47% na comparação anual.