Peixes de mar profundo e corais podem ser vistos na região central do platô da Elevação do Rio Grande, área que está a mais de 500 metros de profundidade (Reprodução/ Fapesp/ NOK/ UK) Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) identificaram vestígios de uma antiga ilha tropical submersa na Elevação do Rio Grande (ERG), uma formação geológica localizada a cerca de 1.100 km da costa do Rio Grande do Sul. Com uma área próxima do tamanho do Uruguai, e, atualmente a mais de 500m de profundidade, a estrutura já esteve acima do nível do mar há aproximadamente 50 milhões de anos, durante o período Eoceno (aproximadamente 56 a 33,9 milhões de anos atrás). A confirmação veio após expedições realizadas entre 2018 e 2023, que encontraram argila vermelha típica de ambientes emersos, além de recifes de coral fossilizados. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! A área atualmente investigada pela equipe tem cerca de 150 mil km², mas os pesquisadores do Centro Oceanográfico de Registros Estratigráficos (Core-IO-USP) apontam que toda a Elevação do Rio Grande pode abranger até 500 mil km², o que equivaleria a quase o tamanho da Espanha. Segundo a equipe, ainda são necessários mais estudos específicos para determinar o real impacto econômico da área para o Brasil. Implicações geopolíticas e econômicas Mais do que uma descoberta científica, a antiga ilha pode reforçar os argumentos do Brasil na Comissão de Limites da Plataforma Continental (CLPC), da Organização das Nações Unidas (ONU), responsável por avaliar pedidos de extensão de plataformas continentais. Caso a Elevação do Rio Grande seja reconhecida como uma extensão natural da crosta continental brasileira, o país poderá ampliar sua Zona Econômica Exclusiva (ZEE) — uma faixa de até 350 milhas náuticas onde tem direitos exclusivos de exploração de recursos. A Elevação do Rio Grande é considerada uma das áreas submarinas mais promissoras do Atlântico Sul. Estudos indicam que ela pode conter minérios estratégicos como cobalto, níquel, manganês, nióbio e terras raras, além de possuir potencial para exploração de petróleo e gás. Além dos ganhos econômicos, a ampliação da ZEE consolidaria o protagonismo do Brasil no Atlântico Sul e sua posição em fóruns de governança oceânica. A exploração sustentável desses recursos também pode impulsionar setores estratégicos como energia limpa, defesa, tecnologia e indústria de semicondutores. Elevação do Rio Grande fica a mais de mil quilômetros da costa brasileira (Reprodução/ revistapesquisa.fapesp.br) Desafios e próximos passos Para que o Brasil tenha direito legal à exploração da região, é preciso comprovar cientificamente que a Elevação do Rio Grande está ligada geologicamente ao continente. O país já apresentou propostas à ONU em 2004 e em 2018, e os novos dados obtidos pela equipe da USP reforçam os argumentos brasileiros. O reconhecimento internacional exigirá a apresentação formal dos estudos à CLPC, além da articulação entre órgãos como o Ministério das Relações Exteriores, a Marinha do Brasil e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. Recentes análises geocronológicas, feitas em rochas dragadas da região e registradas em artigos de estudo da USP em 2024, revelaram idades de aproximadamente 46,9 milhões de anos, indicando forte atividade vulcânica no período Eoceno e reforçando a natureza continental da estrutura.