Conflito pressiona petróleo, fertilizantes e fretes internacionais, podendo elevar custos de produção, energia e crédito ao setor industrial (AdobeStock) Os conflitos no Oriente Médio, deflagrados após o ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã, no dia 28 de fevereiro, colocaram a economia global em estado de alerta. Ainda não é possível dimensionar os efeitos em sua totalidade. Mas, no caso da indústria, já existem alguns sinais das consequências dos confrontos, com tendência de perdurarem por mais algum tempo. Energia, logística e negócios internacionais deverão ter impactos sobre a indústria brasileira, por exemplo. De acordo com dados do Centro Internacional de Negócios da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), entre 2021 e 2025 o Brasil exportou US\$ 73,84 bilhões (R\$ 381.1 bilhões) para países do Golfo e do Oriente Médio, valor que corresponde a aproximadamente 4,5% das vendas externas do país no período. A pauta de exportações é majoritariamente composta por carnes, açúcar, milho, soja e minério de ferro. O economista e professor Jorge Manuel de Souza Ferreira lembra que o Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que utiliza, e o Oriente Médio é um fornecedor crucial de ureia e derivados de potássio, risco de falta do produto ou custos mais elevados. “A alta desses insumos encarece a produção de soja e milho, que são bases para a indústria de proteína animal e biocombustíveis”, alerta. Um relatório do Núcleo de Agronegócio Global do Insper (Insper Agro Global) reforça o peso do Oriente Médio no agronegócio brasileiro, com exportações de US\$ 12,4 bilhões (R\$ 64 bilhões) no ano passado, sendo que o Irã é o principal destino, com 1,7% do total exportado pelo Brasil. Além disso, o país responde por 22% do volume de milho enviado pelo Brasil ao exterior. Além disso, estimativas indicam altas de 300% a 500% nos custos de frete internacional para cargas vindas da Ásia e Europa. “A indústria de transformação (eletroeletrônicos e automotiva) terá custos maiores nos fretes marítimos e eventuais atrasos na chegada de componentes, podendo gerar paradas em linhas de montagem”, explica o economista. Petróleo Ferreira acrescenta que a guerra no Oriente Médio é associada à produção de petróleo e seus efeitos. No caso do Irã, a proximidade ao Estreito de Ormuz faz dele uma ameaça potencial, o que afetou o preço do barril Brent. “Setores que utilizam derivados de petróleo como matéria-prima (plásticos, tintas, resinas) enfrentam compressão de margens ou aumento de preços no produto final”, salienta. Na energia elétrica, quando da utilização das termelétricas, o preço dos combustíveis pressiona o custo, elevando a conta de luz para indústrias eletrointensivas (aço, alumínio e papel) e, por decorrência, inflacionando preços”, acrescenta o economista e professor. Ferreira entende que a guerra causou forte impacto na indústria nacional, também pela “absoluta falta de um estoque regulador de diesel e, também, de gasolina ou até de petróleo capaz de ser refinado nas nossas refinarias”. “O Brasil tem quase autossuficiência de petróleo bruto, mas é insuficiente no refino de petróleo, onde depende de refinarias em outros países para produzir boa parte do petróleo pesado”, emenda o especialista. Política Ele avalia que a guerra atua como um choque de oferta inflacionário. A pressão nos preços (IPCA) dificulta o ciclo de redução de juros. Neste momento, às vésperas de mais uma reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, analistas já preveem a manutenção da Selic em patamares elevados (15%) para conter a inflação importada, o que encarece o crédito para expansão industrial. “Outro ponto é que a busca por portos seguros fortalece o dólar. Se por um lado isso beneficia exportadores de commodities, por outro, encarece a importação de máquinas e equipamentos de alta tecnologia necessários para a modernização da indústria nacional”, finaliza.