A proximidade das eleições presidenciais de outubro costuma aumentar a cautela de investidores, mas o cenário econômico de 2026 exige atenção ainda maior. Com juros elevados, inflação acima da meta e um ambiente de incerteza fiscal, especialistas avaliam que o período pode provocar oscilações nos mercados financeiros e recomendam uma estratégia voltada à proteção do patrimônio, em vez de apostas sobre o resultado das urnas. Segundo Fellipe Rabelo, especialista em finanças e sócio-cofundador da V2R Capital, um dos erros mais comuns é tentar antecipar o comportamento do mercado com base nas pesquisas eleitorais. "A volatilidade não decorre do processo democrático em si, mas da incerteza institucional que ele carrega. O mercado financeiro é, em essência, um mecanismo de precificação do futuro; quando o futuro comporta cenários diametralmente opostos, de continuidade a ruptura do arcabouço fiscal, os preços oscilam com violência proporcional à distância entre esses mundos", afirma. Cenário econômico é mais desafiador Na avaliação do especialista, o Brasil chega ao segundo semestre de 2026 em uma situação diferente da observada em outras eleições presidenciais. Enquanto em anos anteriores havia fatores que ajudavam a amortecer os impactos da instabilidade política, agora o país enfrenta simultaneamente crescimento econômico mais modesto, inflação persistente, dívida pública elevada e juros entre os maiores do mundo. Entre os principais indicadores apontados estão: Dívida pública: 81,1% do PIB pelo critério do Banco Central e 94,3% segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI); Déficit nominal: 9,62% do PIB; Crescimento econômico: projeção de 1,99% para o PIB em 2026; Inflação: expectativa de IPCA em 5,30%, acima da meta de 3%; Selic: projeção de 14% ao ano, com juros reais superiores a 8%. O cenário internacional também contribui para a cautela. Juros elevados nos Estados Unidos tornam investimentos naquele país mais atrativos, reduzindo o fluxo de capital para mercados emergentes, enquanto o dólar permanece valorizado. Com a taxa básica de juros em patamar elevado, a renda fixa segue como uma das alternativas mais atrativas para quem busca segurança. Segundo Rabelo, investimentos pós-fixados atrelados ao CDI oferecem boa rentabilidade com menor exposição às oscilações do mercado. Para objetivos de longo prazo, títulos indexados ao IPCA também aparecem como alternativa para preservar o poder de compra diante da inflação. Por outro lado, o especialista recomenda cautela com títulos prefixados de vencimentos longos, que podem perder valor caso haja nova alta dos juros, além de investimentos em empresas muito endividadas. Outra estratégia sugerida é diversificar parte dos investimentos no exterior. De acordo com o especialista, manter todo o patrimônio concentrado em ativos brasileiros aumenta a exposição aos riscos internos. O dólar costuma funcionar como um mecanismo de proteção em momentos de instabilidade, já que tende a se valorizar quando há saída de recursos do país. Aplicações internacionais, como títulos do Tesouro americano e fundos com ativos globais, também podem reduzir a dependência do desempenho da economia brasileira. Para quem investe em ações, o momento pede maior seletividade. A recomendação é priorizar empresas exportadoras, que podem ser beneficiadas pela valorização do dólar, além de companhias com baixo nível de endividamento e setores considerados mais resilientes, como energia elétrica, saneamento e outras empresas de utilidade pública, cujas receitas costumam acompanhar a inflação. Além da escolha dos ativos, o comportamento do investidor pode fazer diferença nos resultados. Segundo Fellipe Rabelo, muitos investidores acabam vendendo aplicações em momentos de queda por medo de perdas maiores, transformando oscilações temporárias em prejuízos definitivos. Outro erro frequente é deixar grandes quantias paradas na conta aguardando o fim das incertezas, abrindo mão da rentabilidade oferecida pelos juros elevados. Para o especialista, tentar prever exatamente o melhor momento para comprar ou vender ativos é uma estratégia que costuma falhar. "Uma alocação estratégica bem definida não precisa ser alterada a cada pesquisa eleitoral. O rebalanceamento periódico força o investidor a agir de forma contracíclica, vendendo na euforia e comprando no pânico. As urnas de outubro definirão o próximo presidente. Não deveriam definir a próxima década do seu patrimônio", conclui.