A confirmação do fenômeno El Niño pela Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) nesta quinta-feira (12) encerra meses de expectativa entre meteorologistas e inaugura uma nova fase de monitoramento dos impactos climáticos que podem atingir diversas regiões do Brasil nos próximos meses. De acordo com a agência norte-americana, as condições que caracterizam o fenômeno já estão estabelecidas no Oceano Pacífico Equatorial. A NOAA também estima uma probabilidade de 63% de que o evento alcance intensidade muito forte entre o final de 2026 e o início de 2027. Com isso, o debate entre especialistas deixa de ser sobre a ocorrência do fenômeno e passa a se concentrar em sua intensidade e nos efeitos que poderá provocar em diferentes partes do planeta. Embora ainda exista incerteza sobre a magnitude final do aquecimento das águas do Pacífico, meteorologistas afirmam que alguns impactos já podem ser previstos com base em episódios anteriores. No Brasil, os reflexos mais comuns costumam aparecer na distribuição das chuvas e no aumento das temperaturas. Sul deve registrar mais chuvas Historicamente, os efeitos mais consistentes do El Niño são observados na Região Sul. Estados como Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná tendem a registrar volumes de chuva acima da média, especialmente durante a primavera e o verão. O cenário aumenta o risco de temporais, enchentes, alagamentos e deslizamentos em áreas vulneráveis. Segundo nota técnica do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o Rio Grande do Sul apresenta atualmente o sinal mais robusto entre os estados analisados, com potencial para maior frequência de episódios de chuva intensa e elevados acumulados em curtos períodos. A meteorologista Andrea Ramos destaca, no entanto, que eventos extremos dependem da combinação de diversos fatores. — O El Niño funciona como um pano de fundo que aumenta a propensão para determinados extremos climáticos, especialmente chuva acima da média no Sul. Mas eventos como o do Rio Grande do Sul envolvem uma combinação muito complexa de fatores meteorológicos e hidrológicos — explicou. Norte e Nordeste podem enfrentar estiagens Enquanto o Sul tende a ficar mais chuvoso, a previsão para o Norte e parte do Nordeste é oposta. Nessas regiões, o fenômeno costuma reduzir a ocorrência de chuvas e elevar as temperaturas, favorecendo períodos de estiagem mais prolongados, pressão sobre reservatórios de água e aumento do risco de queimadas. As áreas da Amazônia e do Pantanal estão entre as que exigem maior atenção dos órgãos de monitoramento. Calor persistente no Sudeste No Sudeste e no Centro-Oeste, os impactos normalmente são menos uniformes. Os efeitos mais frequentes incluem períodos prolongados de calor, alterações na chegada de frentes frias e mudanças na distribuição das chuvas ao longo da estação chuvosa. Embora não exista um padrão único para todos os estados dessas regiões, especialistas alertam para a possibilidade de ondas de calor mais frequentes e persistentes. Fenômeno pode ganhar força nos próximos meses O rápido aquecimento observado no Pacífico nos últimos meses tem chamado a atenção dos centros meteorológicos internacionais. Modelos climáticos indicam que o El Niño deve ganhar intensidade ao longo do segundo semestre deste ano. Segundo João Hackerott, CEO da Tempo OK, eventos mais fortes costumam exercer maior influência sobre o clima global. — A diferença prática é que um evento forte consegue dominar sobre outros fatores climáticos e impor padrões de seca e chuva muito mais severos e previsíveis. Os modelos atuais mostram um aquecimento oceânico acelerado e consistente desde maio, indicando que o fenômeno deve assumir protagonismo no clima do segundo semestre de 2026 — afirmou. Super El Niño? Apesar da confirmação do fenômeno, os especialistas ressaltam que ainda é cedo para classificá-lo como um "super El Niño", expressão usada informalmente para descrever episódios excepcionalmente intensos. A NOAA considera elevada a possibilidade de que o evento se torne muito forte, mas a resposta da atmosfera ao aquecimento do oceano será determinante para definir sua intensidade final. — O que existe hoje é um consenso científico sobre a formação do El Niño, mas ainda não sobre sua intensidade final. Os próximos meses serão decisivos para entender até onde esse aquecimento do Pacífico pode avançar e quais serão os reflexos mais diretos no clima da América do Sul — destacou Andrea Ramos. A expectativa dos centros de monitoramento é que o fenômeno atinja seu pico entre o final da primavera e o início do verão, período em que seus efeitos costumam se tornar mais evidentes sobre o clima da América do Sul.