(Reprodução) Presente em seis de cada dez indústrias brasileiras, a economia circular traz muitos benefícios. A prática reutiliza os resíduos como insumos para novos produtos e, muitas vezes, vai além, começando no design, com a criação de itens duráveis, fáceis de desmontar e de reaproveitar, constituindo um modelo que une inovação, eficiência e responsabilidade ambiental. O número consta em levantamento feito pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), em que foram ouvidas 1.708 empresas das indústrias extrativa, de transformação e da construção civil, entre 3 e 13 de fevereiro. “Esse dado revela um movimento importante no cenário industrial brasileiro. Ter 60% das indústrias adotando práticas circulares mostra que o tema deixou de ser tendência e se tornou realidade em boa parte do setor produtivo”, afirma a cientista social e política com especializações em ESG, Camila Diniz. A especialista acrescenta que isso tem um significado estratégico tanto para o país quanto para o meio ambiente. “Do ponto de vista econômico, mostra que as empresas estão percebendo os ganhos de competitividade, inovação e redução de custos. Sob a ótica ambiental, significa um avanço na luta contra o desperdício e as emissões de gases de efeito estufa”, comenta. A ação mais frequente, de acordo com a sondagem, é a reciclagem de produtos, presente em um terço das empresas. Em seguida, aparecem o uso de matéria-prima secundária nos processos produtivos (30%) e o desenvolvimento de produtos com foco na durabilidade (29%). “A reciclagem aparece como a prática mais comum por ser, muitas vezes, o primeiro passo para muitas empresas que começam a trilhar o caminho da economia circular. Ela já é amplamente conhecida, conta com cadeias logísticas razoavelmente estabelecidas e, em muitos casos, tem incentivos ou exigências legais que impulsionam sua adoção. Além disso, ela oferece uma solução visível e direta para a questão dos resíduos”, explica. Embora a reciclagem seja importante, a especialista lembra que ela está longe de ser a prática mais eficiente ou inovadora dentro da economia circular. “A hierarquia da circularidade aponta que estratégias como reduzir, reutilizar e redesenhar são ainda mais impactantes do que simplesmente reciclar. Empresas que investem em design inteligente, manutenção de produtos, uso compartilhado e logística reversa, por exemplo, estão indo além e capturando mais valor”, argumenta. Setores Segundo o levantamento, o segmento de calçados lidera quando o assunto é desenvolver, ao menos, uma prática de economia circular, com 86% das empresas declarando que adotam a medida. Biocombustíveis (82%), equipamentos eletrônicos e veículos (os dois com 81%), coque e derivados de petróleo (80%) e celulose e papel (79%) também aparecem com altas proporções. “A indústria de biocombustíveis, por exemplo, já nasceu com uma lógica circular, aproveitando resíduos da agricultura. O setor de papel e celulose há décadas investe em replantio, reuso de água e reaproveitamento de fibras, enquanto fabricantes de veículos e eletrônicos já adotam a remanufatura como diferencial competitivo”, detalha. Por outro lado, setores como o farmacêutico (33%), construção civil (39% a 42%) e impressão (40%) apresentam índices mais baixos. “No caso da indústria farmacêutica, há barreiras legais e sanitárias complexas que dificultam o reuso de materiais e insumos. A construção civil ainda carece de políticas públicas e incentivos para transformar resíduos em novos produtos de forma segura e padronizada. Já o ramo gráfico, impactado por mudanças digitais e econômicas, tem enfrentado dificuldades para investir em inovação circular”. (Reprodução)