Esses três anos morando na Noruega me fizeram valorizar coisas que, até então, eu não parava para pensar no quanto eram importantes para mim. Sinto saudades da feira de sábado na Francisco Glicério, do churros durante um passeio no Gonzaga, do fim de tarde na praia, dos gritos e buzinas de torcedores após uma partida de futebol na Vila Belmiro. Mas uma das coisas de que mais sinto falta é de dirigir. E agora que comecei a trabalhar, finalmente posso guardar dinheiro para tirar minha carta de motorista aqui, que vai custar algo em torno de 20 mil coroas (cerca de R\$ 9 mil). O custo das aulas de direção pode chegar a 60% do valor investido para conseguir a carteira de habilitação, mas o preço final depende do número de aulas de direção realizadas. E, mesmo dirigindo há quase 18 anos, eu tenho que fazer aulas para aprender a dirigir quando a pista estiver congelada, por exemplo, além das aulas de direção noturna obrigatórias. Aqui na Noruega, os pedestres raramente olham para os lados para atravessar a rua. A preferencial é sempre da pessoa na faixa de pedestre. Neste ponto, eu não sinto nenhuma saudade do nosso País, principalmente quando buscava minha filha na escola e perdia um bom tempo para atravessar a rua. Se por um lado eu já sinto aquela tristeza por desembolsar tanto para conseguir a habilitação, por outro entendo que o investimento em aulas práticas e teóricas é a base para garantir números exemplares. Em dados publicados na imprensa norueguesa em junho do ano passado, por três anos consecutivos, a Noruega foi eleita o país mais seguro da Europa em termos de segurança rodoviária. O relatório foi apresentado pelo Conselho Europeu de Segurança dos Transportes ( ETSC). Em 2017, o País obteve o menor número de mortes no trânsito com base no número de habitantes por quilômetro percorrido. No total, 106 pessoas perderam a vida em estradas norueguesas. Segundo relatório publicado no ano passado pelo ETSC, a infraestrutura rodoviária e o foco nos jovens contribuíram para o País alcançar esses números. Em 2018 foram 108 mortes, ainda assim um número baixo. Além das melhorias nas estradas e do sistema de educação e formação de condutores, a Noruega possui tolerância zero para infrações no trânsito. Vamos aos exemplos: se você estiver numa via com velocidade máxima de 60 km/h, precisa desembolsar 800 coroas (R\$ 355) se ultrapassar o limite em até 5 km/h; 2.100 coroas (R\$ 930) até 10 km/h; podendo chegar até 8.500 coroas (R\$ 3.768) se a velocidade ultrapassada for entre 21 e 25 km/h. Verifiquei que no site do Detran de SP é considerada infração média transitar em velocidade superior à máxima permitida em até 20%, com multa de R\$ 130,16. Se digirisse a 72 km/h na Noruega numa via de 60 km/h, pagaria uma multa de 3.800 coroas (R\$ 1.684), cerca de R\$ 1.550 a mais do que valor aplicado no Brasil. Achou caro? Esses números não chegam nem perto quando o assunto é dirigir alcoolizado. Há também casos em que algumas pessoas perdem a habilitação de forma temporária ou definitiva quando fazem uso de medicamentos que podem afetar a habilidade de dirigir. O que mostra que os norueguês não são tão loucos assim quando decidem atravessar a rua sem nem ao menos olhar para os lados.