[[legacy_image_42894]] Para vocês que estão no Brasil, talvez não haja assunto mais desagradável do que o coronavírus, seu rastro letal e a forma como os governantes lidam com a pandemia. No Japão, além da indignante demora na vacinação, ainda temos que aturar os Jogos Olímpicos, que serão realizados em Tóquio a partir de 23 de julho. A capital enfrenta a terceira onda de infecções, registrando mais de 600 novos casos diariamente. O governo novamente declarou estado de emergência, mas cancelar a Olimpíada está fora de cogitação. De acordo com a mídia local, cerca de 70% da população é contra a realização dos Jogos nas atuais condições. A oposição ao governo de Yoshihide Suga, o chefe de gabinete que substituiu Shinzo Abe no cargo de primeiro-ministro, aproveita a delicada situação e a relação com o Comitê Olímpico Internacional para persuadir a população ao protesto, mesmo a apenas 77 dias da cerimônia de abertura. No final de abril, o pedido dos organizadores das Olimpíadas por 500 enfermeiras para trabalho voluntário durante o período das competições enfureceu a classe profissional, que é uma das mais numerosas do país. “Vacinação é a maior prioridade” e “nós não somos peões descartáveis” foram algumas das palavras entoadas no Twitter japonês, remetendo à lentidão na liberação do imunizante, ao papel das enfermeiras na aplicação das vacinas e à peça menos importante no jogo de xadrez. Na última sexta-feira, um protesto aconteceu na Praça Harumi Triton. Apesar da ala da oposição dos membros do parlamento estar aproveitando o momento, torna-se difícil afirmar se a manifestação é organizada pelos partidos socialistas ou um movimento espontâneo, originado no sentimento de indignação dos cidadãos. Na quinta-feira, ativistas contrários aos Jogos de Tóquio conseguiram 50 mil assinaturas em apenas duas horas, numa petição contra as disputas. Para o advogado Utsunomiya, “é difícil pensar que Olimpíada e Paralimpíada de Tóquio podem ser realizadas com segurança este ano. Nestas condições, os Jogos, que deveriam ser o festival da paz, podem desviar-se significantemente de sua filosofia. Dependendo do país, há atletas que estão completamente insatisfeitos e outros que não. Mas quando estiverem em Tóquio, não será possível uma performance satisfatória, pela exposição ao estresse e com a vigência de regras inflexíveis”. A informação positiva é o suprimento de vacinas da Pfizer e BioNtech para os atletas do evento. Sim. Apesar das estatísticas, protestos da população, da oposição e de profissionais da saúde, o governo nipônico paga o preço para que as Olimpíadas sejam mesmo realizadas neste ano. Sem espectadores, sem a Coreia do Norte, com o orçamento mais oneroso da história e uma grande chance de ser um fiasco.