“Alguns consideram a empresa privada um tigre, um predador a ser abatido. Outros, a vaca a ser ordenhada. Poucos a veem pelo que realmente é – o cavalo forte e voluntarioso que puxa a carroça”. A reflexão de Winston Churchill está exposta em um quadro pendurado próximo à escada rolante de uma unidade de Buenos Aires da rede de supermercados Coto, uma das maiores da Argentina. Mais que anunciar a visão dos donos, tendo como parâmetro a defesa do famoso ex-primeiro-ministro britânico à iniciativa privada, a ação certamente busca acalmar aqueles que os culpam pelos aumentos dos preços. “Cavalos” ou não, em épocas de inflação descontrolada – 47,6% em 2018 –, os supermercados argentinos viram alvos fáceis de críticas. A rede tenta atrair os consumidores com promoções como “pague 15% menos com cartão Coto” e “economize 80% na segunda unidade”, além de descontos para clientes de determinados bancos e de programas de fidelidade dos principais jornais. Carrefour e DIA, também presentes por aqui, usam estratégias semelhantes para convencer a população, golpeada pela forte queda do poder aquisitivo nos últimos anos, a seguir comprando. Não está sendo fácil. Para se ter uma ideia do peso da inflação, no último dia 15, a União dos Trabalhadores da Terra organizou, próximo à estação de trens de Constitución, em Buenos Aires, uma venda de verduras e legumes a preços populares em protesto contra o governo. O evento foi concorrido, obviamente, e houve repressão, é claro. Uma idosa foi fotografada com seu carrinho recolhendo berinjelas do chão diante de uma fileira de policiais, imagem que viralizou nas redes sociais. Para abastecer a geladeira e a despensa, ficou mais comum recorrer a supermercados atacadistas. Outra estratégia, para quem tem mais tempo de sobra, é ir várias vezes por semana ao mercado para aproveitar as diferentes promoções oferecidas a cada dia, ou alternar entre várias redes. Há ainda uma terceira: comprar apenas os produtos incluídos na política de “preços cuidados” do governo, que congela os valores durante meses. O problema desta última prática é que alguns destes produtos desaparecem rapidamente das prateleiras. A bronca de muitos argentinos com os grandes supermercados é que os descontos anunciados, reclamam, são para inglês ver. Há quem diga que, na ponta do lápis, as promoções apenas devolvem os produtos a seu preço real. O certo é que os desavisados que compram sem nenhum tipo de desconto gastam significativamente mais. Apesar dos aparentes subterfúgios, o setor está sentindo a pressão. De janeiro a novembro do ano passado, as vendas aumentaram nominalmente 27,1%, mas caíram 2,3% se descontada a inflação do período. Uma análise mês a mês dos dados mostra que os resultados foram piorando, tendência que se acentuou no segundo semestre: houve quedas no faturamento de 7,9% em setembro, de 9,9% em outubro e de 12,5% em novembro, último mês com dados disponíveis. Nem mesmo a maior rede de supermercados do mundo, a norte-americana Walmart, escapou ilesa da queda do consumo nos últimos meses por aqui. A empresa decidiu fechar 13 das 106 lojas que mantém no país. Ao Página 12, a Associação de Supermercados Unidos, que representa todas as grandes redes do país, afirmou que o setor perdeu 6 mil postos de trabalho nos últimos 12 meses. Ou seja: mesmo usando as armas disponíveis para atrair os clientes, os supermercados argentinos estão puxando a carroça por uma ladeira empinada demais. E se até puros-sangues estão tropeçando, não será surpresa se alguns pangarés acabarem ficando pelo caminho.