O outono começou há um mês, mas até alguns dias atrás não parecia. As temperaturas insistiam em se aproximar dos 30 graus em Buenos Aires, algo estranhíssimo para uma cidade com estações tão marcadas. Por aqui, até os patos dos Bosques de Palermo sentem o aquecimento global. Esta semana começou um pouco mais fria, mas o que vai congelar de verdade não é o clima, e sim os preços. O governo, que mantém um olho na inflação e o outro na eleição de outubro, fechou acordo com as grandes redes de supermercados para segurar por seis meses os preços de 64 produtos da cesta básica. A medida abrange algumas marcas baratas de arroz, açúcar, farinha, macarrão, óleo de girassol, bolacha, leite, iogurte e, claro, vinho e erva-mate, pois ninguém é de ferro do lado de cá do Rio da Prata. Por sua conta, o governo ainda congelará os preços do transporte público e da eletricidade e parcelará as contas de gás em três prestações. O plano se estende – surpresa – por quase todo o período de campanha eleitoral, já que o primeiro turno está marcado para 27 de outubro. Vinda de um liberal convicto como o presidente Mauricio Macri, a decisão mostra como as trapalhadas deste governo, como a retirada sem anestesia de subsídios aos serviços públicos, fizeram mal à economia argentina. As medidas anunciadas na segunda-feira (22) são uma cartada desesperada contra uma inflação que não dá trégua: apenas no mês de março os preços avançaram 4,7% em relação a fevereiro, o equivalente à inflação acumulada de 12 meses no Brasil, mesmo sem crescimento econômico. Favorável ao livre mercado, Macri age contra seus princípios para tentar se salvar politicamente. Apesar dos erros do presidente, a leitura do mercado financeiro é que um eventual novo governo de Cristina Kirchner seria ainda pior para o país – ou ao menos aos investidores. Na presidência, Cristina abraçou o populismo não apenas com seus habituais discursos de horas de duração, mas também com congelamentos de preços, subsídios, travas à compra de moedas estrangeira e nacionalização de empresas importantes, como Aerolíneas Argentinas e YPF. Com ela no poder, o acordo com o Fundo Monetário Internacional, por exemplo, ganharia uma adversária feroz. Neste momento, a corrida presidencial é uma incógnita. Não se sabe quem realmente concorrerá e nenhum jogador abandona sua poker face. O notório ego de Cristina provavelmente a impediria de disputar uma eleição perdida, mas ela, que largou atrás de Macri, vem subindo nas pesquisas impulsionada pelo fracasso econômico do atual governo. A atual senadora ainda não colocou as cartas sobre a mesa, claro, para não virar alvo de críticas desde já. Do mesmo partido de Macri, María Eugenia Vidal, a governadora da província de Buenos Aires, aparece melhor que o padrinho político nas pesquisas de opinião, mas sua entrada na disputa possivelmente sepultaria o presidente politicamente. Martín Lousteau, da União Cívica Radical, integrante da base aliada de Macri, também pode virar adversário interno de Macri à presidência. Do outro lado do espectro político, o principal nome é Daniel Scioli, ex-governador de Buenos Aires, derrotado por Macri na última disputa presidencial. Há uma “terceira via”, espécie de centro, representada principalmente por Sergio Massa, um ex-deputado da ala do peronismo não alinhada a Cristina, e pelo ex-ministro da Economia Roberto Lavagna. Scioli, Massa e Lavagna têm chances pequenas de chegar ao segundo turno se Cristina concorrer. Sem ela na disputa, o jogo certamente ficaria muito mais aberto.