Urupema, a cidade mais fria do Brasil, encanta turistas com um fenômeno natural raro (Marlon Sá Molin/Divulgação) Uma intensa massa de ar polar está prestes a provocar um dos eventos climáticos mais curiosos do planeta na pequena e gelada Urupema, em Santa Catarina, onde os termômetros já se preparam para marcar temperaturas negativas extremas. Fenômeno pode transformar gotículas de neblina em cristais de gelo suspensos no ar — um espetáculo raríssimo e possível apenas em locais muito específicos do mundo. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Urupema pode testemunhar um dos eventos climáticos mais incomuns e espetaculares do planeta nos próximos dias, graças à chegada de uma nova e intensa frente fria que está avançando pelo Sul do Brasil. Localizada a 1.335 metros de altitude na Serra Catarinense, a cidade é considerada a mais fria do país e pode registrar um fenômeno que especialistas já chamam de "congelaço atmosférico". O termo é usado informalmente para descrever um cenário em que, além da geada comum, a própria umidade do ar e até mesmo a névoa congelam em suspensão, criando uma aparência de "congelamento do ar" — algo que, segundo meteorologistas, é possível apenas em locais com clima muito severo e condições específicas de umidade e temperatura. O que é o “congelaço atmosférico”? Trata-se de um fenômeno raríssimo causado pela combinação de temperaturas abaixo de -5 °C, alta umidade relativa do ar e ausência de vento. Nessas condições, partículas microscópicas de água presentes na atmosfera cristalizam ainda em suspensão, sem tocar o solo, formando estruturas semelhantes a fios de gelo flutuantes. Quando isso acontece sob iluminação solar, o cenário se torna ainda mais surreal, com reflexos brilhantes e paisagens de tirar o fôlego. “É como se o ar estivesse pintado de branco. Já tivemos registros semelhantes aqui em 2013 e 2016, mas essa frente fria tem potencial para repetir — ou até superar — aqueles episódios”, afirma o climatologista Ricardo Augusto de Sá, da Epagri/Ciram, órgão que monitora o clima em Santa Catarina. Por que Urupema é tão fria? A cidade de apenas 2.600 habitantes é constantemente citada em boletins meteorológicos por registrar as temperaturas mais baixas do Brasil. Isso se deve à sua altitude elevada, à localização geográfica favorecida pela presença de vales profundos e ao efeito conhecido como "baixa radiação noturna", quando o solo perde calor rapidamente após o pôr do sol. Nos meses de inverno, Urupema frequentemente registra temperaturas negativas durante a madrugada, e geadas são comuns quase toda semana. Em 2021, a cidade chegou a marcar impressionantes -8,9 °C. Nova frente fria pode derrubar temperaturas a -9 °C Segundo a Defesa Civil de Santa Catarina, a frente fria prevista para os próximos dias tem origem polar e poderá provocar quedas bruscas nas temperaturas já a partir desta sexta-feira (26). Modelos climáticos indicam que os termômetros podem atingir marcas entre -7 °C e -9 °C nas madrugadas de sábado e domingo. Além do frio, há possibilidade de nevascas fracas e formação de sincelo — outro fenômeno raro, em que o orvalho congela sobre superfícies, formando camadas espessas de gelo. Turismo e ciência: quando o frio vira atração O inverno transforma Urupema em um dos destinos mais procurados da Serra Catarinense. Os mirantes, as vinícolas e, principalmente, a centenária Cascata que Congela (sim, ela realmente congela em certos dias) são paradas obrigatórias para os visitantes. Com o aumento da expectativa por fenômenos climáticos raros, a cidade espera um fluxo ainda maior de turistas. Hotéis e pousadas já estão com mais de 90% da ocupação para o fim de semana, segundo a associação local de turismo. Além do turismo, o fenômeno desperta interesse da comunidade científica. Pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) devem instalar sensores adicionais na região para monitorar em tempo real os efeitos dessa nova frente polar. Alerta para a população Apesar do fascínio, o frio extremo representa riscos para a saúde. Hipotermia, agravos respiratórios e congelamento de extremidades são algumas das preocupações. A prefeitura de Urupema já mobilizou equipes para distribuir cobertores e reforçar abrigos temporários para moradores em situação de vulnerabilidade.