Murray(com microfone): cafés verde, descafeinado e torrado ficaram isentos das tarifas, mas solúvel não (Alexsander Ferraz/AT) Em um contexto de disputas tarifárias, novas regras ambientais impostas pela União Europeia e os impactos do protecionismo global, o presidente da Associação Nacional do Café dos Estados Unidos, Bill Murray, afirmou que o café brasileiro é essencial para a indústria americana e mundial. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! “Nós não podemos ter uma indústria do café em nenhum lugar do mundo sem o café brasileiro”, afirmou Murray, que participou do último dia do 25º Seminário Internacional do Café, realizado pela Associação Comercial de Santos, no Santos Convention Center. Segundo ele, os Estados Unidos dependem diretamente do produto brasileiro tanto pela qualidade quanto pela sustentabilidade e competitividade do café nacional. Murray participou do painel regulatório que discutiu os impactos das tarifas impostas pelo Governo Donald Trump e os riscos de novas barreiras comerciais. Durante a palestra, ele explicou que as tarifas passaram a ser utilizadas por Trump como ferramenta política e econômica em diferentes disputas internacionais. “O presidente Trump vê as tarifas como uma arma essencial”, disse. Murray lembrou que o café verde, o descafeinado e o torrado conseguiram isenções tarifárias nos Estados Unidos, mas o solúvel permaneceu fora das exceções. Segundo ele, o setor ainda tenta reverter essa situação. “Nós não sabemos por que o café solúvel ficou de fora. Todas as razões para a exceção do café também servem para o café solúvel”. O executivo também chamou atenção para o desconhecimento do consumidor americano sobre a origem do café consumido no país. “Os americanos gostam de café, mas não entendem muito sobre agricultura, sobre de onde o café vem. Gostam do café italiano, mas não sabem que ele é mais da metade brasileiro”. Segundo ele, isso cria espaço para desinformação e pressões políticas sobre o setor. Murray citou manchetes alarmistas e campanhas negativas relacionadas ao café e defendeu que o Brasil invista mais em dados e comunicação para combater percepções equivocadas. “Não adianta dizer que o café brasileiro é sustentável. É preciso provar”. Giannetti alerta para protecionismo O economista e imortal da Academia Brasileira de Letras Eduardo Giannetti afirmou que o mundo vive o encerramento de um ciclo de “hiper-globalização” e alertou para os riscos do avanço do protecionismo. Segundo ele, repetir políticas semelhantes às adotadas na década de 1930 pode levar o mundo a um cenário de retração econômica. “A saída doentia é a rodada protecionista”. Apesar disso, Giannetti avaliou que o novo cenário global pode representar uma oportunidade estratégica para o País. “O mundo está precisando do Brasil”. Para ele, o País pode ganhar espaço diante da necessidade global por alimentos, energia e matérias-primas, mas precisará enfrentar problemas estruturais internos. Segundo ele, os principais desafios são infraestrutura, segurança jurídica, questão fiscal e, principalmente, educação. “A principal deficiência da redemocratização foi não ter dado atenção devida à formação de capital humano”. Giannetti defendeu prioridade absoluta à educação básica e afirmou que o setor cafeeiro também precisa investir mais em agregação de valor. Setor vê lei europeia como desafio A legislação antidesmatamento europeia, prevista para entrar em vigor em dezembro, é vista pelo setor de café como um dos maiores desafios atuais do comércio internacional do café. O diretor-executivo do Cecafé, Marcos Matos, disse que o Brasil vive um esforço coletivo para se adequar às novas exigências e criticou a dificuldade de adaptação às regras europeias. Segundo ele, o País precisa mostrar ao mundo que a cafeicultura brasileira alia produção, sustentabilidade e preservação ambiental. “O Brasil é o maior produtor, o maior exportador e o segundo maior consumidor de café do mundo. Temos diversidade, qualidade e sustentabilidade”. Reação do governo O auditor-fiscal federal agropecuário do Ministério da Agricultura e Pecuária, Augusto Billi, afirmou que o governo brasileiro intensificou a atuação internacional para responder às novas regulações e buscar abertura de mercados. Billi criticou a visão europeia sobre sustentabilidade e disse que muitas vezes há uma tentativa de associar a agricultura brasileira à criminalidade ambiental. “O desmatamento vem de outros fatores, como mineração, grilagem e falta de titulação de terra. Estamos culpando a pessoa errada”. Ele também defendeu o Código Florestal e afirmou que o País possui uma das legislações ambientais mais rígidas do mundo. “O produtor brasileiro preserva dentro da própria propriedade”.