A Elevação do Rio Grande representa uma oportunidade estratégica para consolidar o país como potência na transição energética global (Reprodução) Uma área submersa do tamanho da Alemanha, localizada a cerca de 1.500 km da costa do Brasil, está no centro de uma disputa silenciosa — mas estratégica. Trata-se da Elevação do Rio Grande, uma formação geológica submarina no Atlântico Sul, onde o Brasil reivindica soberania junto à Comissão de Limites da Plataforma Continental da ONU. O motivo? A região é considerada riquíssima em minérios valiosos, como cobalto, níquel, manganês e terras raras — materiais indispensáveis para a indústria tecnológica e a transição energética global. Clique aqui para seguir o canal de A Tribuna no WhatsApp! A Elevação, que se estende por mais de 150 mil km² (área superior à de países como Islândia e Inglaterra), vem sendo mapeada e estudada pela Marinha e pesquisadores brasileiros há anos. O interesse do Brasil é garantir que a área seja reconhecida como parte de sua plataforma continental estendida, o que daria ao país direito exclusivo de exploração econômica desses recursos, mesmo estando além das 200 milhas náuticas da Zona Econômica Exclusiva (ZEE). Um novo “pré-sal submarino”? Especialistas comparam a importância da Elevação do Rio Grande com o que foi a descoberta do pré-sal em 2006. “Estamos falando de uma possível nova fronteira mineral, com reservas estratégicas em um momento em que o mundo busca substituir combustíveis fósseis por baterias e tecnologias limpas”, explica o oceanógrafo e pesquisador da UFRJ, Guilherme França, em entrevistas recentes à imprensa especializada. O local abriga crostas de ferromanganês que concentram elementos como cobalto e terras raras, fundamentais para a fabricação de baterias, painéis solares, turbinas e semicondutores. A corrida por esses minerais se intensificou com o crescimento dos mercados de carros elétricos, celulares e tecnologias verdes. Reivindicação internacional Em abril de 2024, o Brasil formalizou à Comissão de Limites da Plataforma Continental (CLPC) da ONU o pedido de extensão de sua plataforma para incluir a Elevação do Rio Grande. A decisão ainda está em análise, mas o país já obteve parecer favorável em outras áreas similares no Atlântico, como no entorno da costa norte e da região sudeste. A Marinha e o Ministério das Relações Exteriores tratam o tema como prioridade estratégica nacional, e o Itamaraty tem atuado discretamente junto à ONU para acelerar o reconhecimento internacional da soberania brasileira sobre o território. Potencial bilionário e desafios Estudos indicam que o valor estimado das reservas da Elevação pode alcançar centenas de bilhões de dólares. No entanto, a exploração desses recursos enfrenta desafios técnicos e ambientais. A mineração em águas profundas levanta alertas sobre impactos nos ecossistemas marinhos ainda pouco conhecidos. ONGs ambientais, inclusive, cobram regulamentação internacional rígida antes de qualquer autorização para extrair minérios no fundo do mar. Além disso, países como China, Japão e Estados Unidos também têm interesse crescente em áreas semelhantes e acompanham de perto os desdobramentos da disputa. E o que isso significa para o Brasil? Se a reivindicação for aceita, o Brasil pode consolidar seu domínio sobre uma área vital para o futuro energético e tecnológico do planeta. Mais do que riquezas, a Elevação do Rio Grande representa soberania científica, econômica e geopolítica. O tema tem mobilizado universidades brasileiras, como USP, UFRJ e Unifesp, além da Marinha e da Petrobras, que já financiam missões de pesquisa na região.