Seminário Internacional do Café, no Santos Convention Center: debates com exportadores e especialistas (Alexsander Ferraz/AT) O Brasil produz 40% do café do mundo, mas fica com pouco mais de 3% da receita global gerada pelo produto. A disparidade foi um dos principais alertas feitos durante o segundo dia do 25º Seminário Internacional do Café, promovido pela Associação Comercial de Santos (ACS), nesta quarta-feira (20), no Santos Convention Center. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Entre previsões de safra recorde, discussões sobre inteligência artificial, riscos climáticos, guerra e gargalos logísticos, palestrantes destacaram que o Brasil ainda perde espaço quando o assunto é valor agregado e presença de marca no mundo. “Por que as empresas americanas têm o colombian blend, mas não têm o brazilian blend? Falta branding, marketing”, afirmou o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic), Pavel Cardoso. Ele disse que a tradicional marca Cafés do Brasil, criada nos anos 1980, foi reformulada para fortalecer a imagem do produto brasileiro no exterior. Segundo ele, a ideia é associar o grão nacional à qualidade, sustentabilidade, tradição, tecnologia e transformação social. “O Brasil produz 40% do café do mundo, mas participa com apenas 3,45% da receita global do setor”. De acordo com ele, o mercado mundial movimenta US\$ 700 bilhões, enquanto o Brasil fica com US\$ 24,7 bilhões, somando exportações e consumo interno. Pavel diz que Suíça e Alemanha, mesmo sem produzirem café, conseguem gerar mais receita do que o Brasil graças ao processamento, industrialização e fortalecimento de marca. “O mundo valoriza o nosso café, mas muitas vezes sem saber que ele é brasileiro”. Ele contou que visitou cafeterias em Milão e Chicago. “Em Chicago, o mestre torrador me disse que 60% do blend principal era café brasileiro. Mas isso não estava estampado na loja, como acontece com o café colombiano. Em Milão nem sabiam da existência do brasileiro”. Para ele, o caminho passa por investimentos contínuos em marketing internacional, industrialização e fortalecimento da marca Cafés do Brasil. Custos de produção mais caros e China O economista Pablo Spyer afirmou, com a guerra no Oriente Médio, os preços do petróleo pressionaram combustíveis, fretes e fertilizantes. “Os insumos agrícolas subiram muito”. Spyer também destacou a crise imobiliária chinesa como um fator de preocupação global. Segundo ele, os preços dos imóveis na China acumulam anos de queda, afetando consumo, confiança e investimentos no país asiático. “A China é uma economia central para o agro brasileiro”. Eficiência logística para o produtor O presidente da Autoridade Portuária de Santos (APS), Anderson Pomini, destacou a relação histórica entre o café e o Porto de Santos. Segundo ele, o principal pedido do setor é mais eficiência logística, melhoria nos acessos e maior agilidade operacional. “O produtor quer que sua carga chegue com segurança ao destino”. Pomini afirmou que o Porto de Santos trabalha com planejamento de longo prazo e que o objetivo é preparar a infraestrutura para os próximos 25 anos Safra pode ser a maior da história O diretor comercial da companhia de café Eisa e vice-presidente da Associação Comercial de Santos, Carlos Santana, afirmou que a entrada da nova safra brasileira já começa a pressionar os preços no mercado mundial. “Muito provavelmente o Brasil vai colher a maior safra da sua história neste ano”. Segundo ele, o café arábica tipo bica corrida está sendo negociado entre R\$ 1,6 mil e R\$ 1,7 mil, enquanto o robusta está em torno de R\$ 900, 20% abaixo de 2025. Carlos destacou ainda que o Brasil participa entre 30% e 40% dos blends no mundo e que a expectativa não é apenas de volume, mas também de qualidade. “Nós esperamos uma safra muito boa de qualidade”. Ele citou temperaturas mais altas no inverno como fator que reduz risco de geadas e favorece o pós-colheita. O corretor de café Eduardo Carvalhaes alertou para o ambiente de incertezas e especulações no mercado. “As coisas são muito mais complexas hoje do que eram antes”. Conforme ele, o mercado trabalha com projeções diferentes para a produção brasileira, variando entre 66 milhões e 75 milhões de sacas. Ele destacou que os preços internacionais vêm recuando desde o começo do ano, impulsionados pela expectativa de safra maior. “Na Bolsa de Nova Iorque estava acima de US\$ 3 por libra-peso e agora está em torno de US\$ 2,70”. Apesar disso, Eduardo afirmou que o consumo mundial segue em alta, especialmente na Ásia. “A China é a nossa grande esperança”. Ativo financeiro monitorado por algoritmos O economista Pablo Spyer, CEO da Vai Tourinho, sócio da XP Investimentos e apresentador da Jovem Pan, abriu as discussões no seminário, destacando que o Brasil deve se preparar para os desafios disruptivos, mudanças que quebram os paradigmas nos negócios. Spyer destacou a transformação do café em um ativo financeiro cada vez mais monitorado por fundos, robôs e algoritmos internacionais. “O mundo está olhando o café”. Segundo ele, ferramentas de hedge (proteção no mercado financeiro contra oscilação de preços) e inteligência de mercado estão se tornando fundamentais para produtores e exportadores. Spyer segue otimista com o Brasil, mesmo diante das turbulências internacionais. “A inflação está controlada, o desemprego está nos níveis mais baixos da história e existe muito dinheiro entrando no Brasil”. Ele citou investimentos estrangeiros, reforma tributária e perspectivas de crescimento econômico como fatores positivos para o País. Ele alertou para os impactos da guerra no Oriente Médio sobre o petróleo, fertilizantes, fretes e inflação global. “Se o petróleo continuar subindo, isso vai afetar o café também. O café fica mais caro e as pessoas têm menos dinheiro para consumir”. Segundo Spyer, o conflito já provocou alta expressiva no petróleo e nos custos de fertilizantes, além de pressionar a inflação na Europa e Estados Unidos. Para ele, o Brasil pode ter uma produção recorde em 2026, caso não haja impactos severos da La Niña no Sudeste. “O risco é uma La Niña forte impedir chuvas no período da florada”.