Dois terços das mulheres que buscaram atendimento médico no sistema de saúde após sofrerem agressões em ambiente doméstico relataram que o episódio não foi uma ocorrência isolada, mas a repetição de violências anteriores. Os dados constam no Atlas da Violência, estudo desenvolvido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), elaborado com base nos registros do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) do Ministério da Saúde. Os casos de violência contra a mulher vêm preocupando autoridades. Na madrugada do domingo, policiais militares encontraram uma bebê de 1 ano mamando no peito da mãe, que já estava morta, ao atenderem uma ocorrência em uma residência de Cataguases, na Zona da Mata de Minas. A mulher foi identificada como Karen Aparecida Ferreira Rosa, de 44 anos. Seu companheiro, João Vitor Silva Coleta da Matta, de 41 anos, foi preso em flagrante por feminicídio. Em análise preliminar, ficou constatado que a vítima morreu por asfixia provocada por estrangulamento. Karen deixou sete filhos e seis netos. Além da bebê de 1 ano encontrada ao lado da mãe, outra criança, também filha do casal, estava na residência no momento do crime. EM NÚMEROS Ao todo, as unidades de saúde do País prestaram assistência a 186.177 mulheres vítimas de violência doméstica. Desse total, 100,8 mil declararam já ter sofrido ao menos um episódio de violência anteriormente. "A sustentação desse ciclo frequentemente envolve estratégias de controle e isolamento, por meio das quais o agressor limita o acesso da mulher a redes de apoio - familiares, amigos e serviços - e amplia sua dependência Nesse contexto, não é incomum que mulheres transitem reiteradamente nos serviços de saúde após episódios de violência, sem que haja uma interrupção efetiva da dinâmica abusiva. Em muitos casos, essa trajetória contínua de violência culmina em desfechos letais, evidenciando como as desigualdades de gênero operam de forma estrutural e podem resultar em feminicídio", diz o relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Segundo os dados do sistema de saúde, 3.642 mulheres foram assassinadas no Brasil em 2024, o que corresponde a uma taxa de 3,4 mortes a cada 100 mil mulheres. "Trata-se de uma tendência de redução que vem sendo registrada ao longo da última década. Desde 2014, primeiro ano da série histórica analisada aqui, houve diminuição de 27,7% na taxa de homicídios de mulheres notificados pelo sistema de saúde. Apesar desse recuo, o volume absoluto de casos permanece alarmante e evidencia a persistência da violência letal de gênero no país: entre 2014 e 2024, 46.336 mulheres foram assassinadas no Brasil", diz o levantamento do fórum. PERFIL Em 2024, 2.457 mulheres negras foram vítimas de homicídio, o que representa 67,5% do total de homicídios femininos. Trata-se de uma taxa de 4 mulheres negras mortas a cada 100 mil mulheres. Naquele ano, a taxa de vitimização por homicídio de mulheres negras foi 66,7% superior à taxa verificada entre mulheres não negras (2,4).