[[legacy_image_69758]] Patrícia Blanco é relações públicas e tem pós-graduação em Marketing, atuando na área de Comunicação e Relações Governamentais desde 1990. É, também, presidente-executiva do Instituto Palavra Aberta, que atua na defesa da plena liberdade de ideias, pensamentos e opiniões. Neste mês, o instituto lança o programa de Educação Midiática, o Educa Mais. Com o objetivo de debater e difundir o tema pelo país, o programa também propõe criar ferramentas para que crianças e jovens desenvolvam habilidades que torne possível lidar com a informação de maneira responsável. Nesta entrevista, Patrícia fala sobre fake news, liberdade de expressão e da necessidade de a sociedade envolver-se no desenvolvimento do senso crítico na hora de consumir ou produzir conteúdo. Já vínhamos acompanhando o crescimento das fake news, mas as últimas eleições foram um momento marcante no país em relação a isso. O que nos trouxe a este cenário? Os grandes avanços tecnológicos das últimas décadas revolucionaram não só a indústria e o mercado, mas mudaram drasticamente as relações humanas e as formas pelas quais nos comunicamos. Dispositivos como celulares e tablets podem ser encarados como extensões de nós mesmos. Além disso, a digitalização dos meios de comunicação fez com que passássemos de meros espectadores para produtores de conteúdo - e isso faz toda a diferença. Hoje, com poucos cliques e um baixo investimento, qualquer pessoa pode criar um blog de notícias ou um canal de vídeos, por exemplo. Ou seja: conteúdos de diversos formatos e procedências são criados, postados, enviados, transmitidos e recebidos como informação o tempo todo, em um volume sem precedentes. Essas informações, verdadeiras ou não, jornalísticas ou não, mal intencionadas ou não, seguem circulando. Em um período eleitoral, como vimos no Brasil nas duas últimas eleições presidenciais e também nos Estados Unidos, é esperado que a quantidade de informações criadas para favorecer os lados em disputa aumente de modo considerável. Dentro deste novo cenário, o que, de fato, é informação e quem a produz? Tudo é informação, justamente porque todos nós podemos produzir conteúdos diversos. A pergunta é: quais informações e fontes são confiáveis? Como consumidores, precisamos saber exatamente o que estamos consumindo, sabendo diferenciar fatos de opiniões e também a produzir e compartilhar mensagens com responsabilidade. É preciso prestar atenção na autoria, contexto e intenção do que estamos lendo, vendo e ouvindo. E isso vale também para a imprensa tradicional. A liberdade de expressão é algo caro para a democracia. Mas quanto temos que entender que a responsabilidade ao se expressar também é cara? A plena liberdade de expressão é justamente no que o Palavra Aberta acredita, uma vez que cremos nela como pilar fundamental da democracia e de uma sociedade avançada e sustentável - é impossível dissociar esses elementos uns dos outros. Para isso, promovemos a liberdade de expressão e informação manifestada na liberdade de imprensa por meio de diversas iniciativas que visam valorizar o indivíduo como alguém capaz de tomar as próprias decisões, sem a tutela do Estado. Isto porque entendemos que o indivíduo bem informado faz escolhas melhores para si e mais próximas de suas necessidades. O que é educação midiática e qual a importância que ela tem dentro deste contexto? A educação midiática é o conjunto de habilidades para acessar, analisar, criar e participar de maneira crítica do ambiente informacional e midiático em todos os seus formatos - dos impressos aos digitais. Ou seja: é a habilidade de ler criticamente e participar de forma ativa do mundo conectado em que vivemos. Essa não é uma necessidade exatamente nova, mas o volume de informações disponíveis hoje dá mais urgência para o contexto em que vivemos. É preciso dominar as ferramentas e as linguagens que nos permitem ter voz nos ambientes digitais e informacionais, e isso só é possível se estivermos aptos a analisarmos o contexto de modo crítico. A Base Nacional Comum Curricular traz questões que buscam despertar no aluno esse senso crítico em relação à leitura da mídia. Como você vê essa questão e no que mais precisamos avançar para garantir uma relação saudável com a informação? A BNCC é um grande avanço para garantir a qualidade e a equidade da aprendizagem na Educação Básica. O campo de atuação jornalístico-midiático aparece como parte do componente Língua Portuguesa da base, para o Ensino Fundamental e Médio, o que é algo a ser comemorado, mas que demanda uma tarefa trabalhosa para as escolas e, principalmente, professores. É preciso que eles estejam preparados para trabalhar esses conteúdos em sala de aula, fazendo com que as crianças e jovens desenvolvam competências essenciais para o cidadão do século 21. Como o Palavra Aberta trabalha com esses temas e o que é o EducaMídia? Como vai funcionar o programa? O EducaMídia é uma iniciativa do Instituto Palavra Aberta, com apoio do Google.org, para capacitar professores e engajar a sociedade no processo de educação midiática. O programa nasce como resposta na área de Educação a esse contexto desafiador de que falei, marcado pela poluição informacional, pela fusão dos papéis de consumidor e produtor de conteúdo e pelo aumento da intolerância. O EducaMídia objetiva promover o desenvolvimento de três competências centrais: interpretação crítica das informações, produção ativa de conteúdos e participação responsável na sociedade. Para isso, vamos atuar na formação de professores, no apoio a formuladores de políticas públicas e na sensibilização para o tema por meio de uma plataforma de conteúdos de formação, pesquisa, materiais e recursos para a sala de aula devidamente alinhados com a BNCC. Mas essa é uma responsabilidade apenas da escola? A educação midiática é uma missão de todos nós, o que inclui também os pais. As famílias precisam estar atentas aos conteúdos, sites e aplicativos que os filhos veem, usam e compartilham nas redes. Da mesma maneira que um pai não deixa a criança atravessar a rua sozinha, ele não deve deixar que ela fique exposta na internet. Cada vez mais jornalistas e veículos de comunicação estão sendo alvos de ataques por parte de políticos e grupos sociais. Isso ameaça a democracia e o direito à informação? Tudo o que ataca a liberdade de imprensa deve ser encarado como uma ameaça à democracia e ao direito à informação, independentemente da orientação político-ideológica. É exatamente para que não enfrentemos situações extremas que a educação midiática é necessária, no sentido de que se apresenta como um caminho seguro para evitarmos desinformação e manipulação. É claro que não se trata de uma bala de prata - ela não resolverá magicamente todos os nossos problemas. Mesmo assim, penso que somente por meio da educação midiática conseguiremos formar crianças, jovens e, consequentemente, adultos que sejam conscientes para exercerem sua liberdade de escolha e expressão de maneira plena.