Um dos pilares da democracia e fundamental para uma sociedade plural, a imprensa livre é alvo de ataques que não se limitam às redes sociais. Relatório divulgado nesta semana pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) põe o Brasil como o sexto país mais perigoso para o exercício do jornalismo, atrás de Síria, Iraque, Paquistão, México e Somália. Esse dado serve de reflexão para a defesa dos direitos individuais, no Dia Mundial da Liberdade de Imprensa. Em comunicado alusivo à data, a diretora geral da Unesco, Audrey Azoulay afirma ser crescente o discurso de desconfiança e deslegitimação da imprensa e do jornalismo. “É essencial que a liberdade de opinião seja garantida por meio do livre intercâmbio de ideias e informação com base em verdades factuais. Todos os estados e todas as nações são fortalecidas pela informação, pelo debate e pela troca de opiniões”, diz. Para o presidente da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), Daniel Bramatti, o ódio contra jornalistas prejudica toda a sociedade. “Não existe livre circulação de informações, um pressuposto para a democracia, em um ambiente marcado por ameaças e intimidação.” “Os ataques virtuais a jornalistas são condenáveis, independentemente de virem do governo ou da oposição. Os que provocam mais dano, porém, são os provenientes de quem exerce o poder”, continua. Um direito Opinião similar tem o coordenador do curso de Jornalismo da Universidade Católica de Santos (UniSantos), Paulo Roberto Börnsen Vibiam. “A liberdade de imprensa é um direito inalienável, não somente dos profissionais ou veículos de imprensa, mas de toda a sociedade. A imprensa livre é um dos pilares da democracia, pois garante a transparência política e o livre acesso à informação de qualidade”. Börnsen afirma que a data serve para alertar quanto à importância da apuração jornalística no combate a notícias falsas. “Também para repudiar com veemência aqueles que se utilizam das fake news para manipular, mentir, oprimir e fazer valer seus interesses mesquinhos, espúrios e inconfessáveis.” O coordenador do curso de Jornalismo da Universidade Santa Cecília (Unisanta), Robson Bastos, pondera que a livre circulação de informações é o ponto central da democracia. “A liberdade é um fator primordial para compreender o mundo atual. O desenvolvimento de uma sociedade plural só é possível quando os cidadãos têm acesso à informação fidedigna e bem apurada. Esse processo é um aprendizado constante”, diz. Ameaças: risco Para a diretora regional do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado, Solange Santana, ameaças e crimes contra a categoria arriscam o funcionamento adequado das democracias. “Quando o repórter cumpre seu papel de bem apurar problemas, denunciar deslizes (políticos) e informar a sociedade, mais ele é atacado por aqueles que detêm algum tipo de poder.” Solange cita serem crescentes ataques orquestrados à categoria por lideranças políticas, como os presidentes dos Estados Unidos, Donald Trump, e do Brasil, Jair Bolsonaro. Ela cita que ambos utilizam suas redes sociais para incitar seus seguidores contra jornalistas. “É grave ver um presidente de uma nação tomando atitudes contra a liberdade de expressão”, afirma. Ela cita, ainda, a redução de quadros e o acúmulo de funções nas redações como entraves à investigação jornalística. Em debate O Dia Mundial da Liberdade de Imprensa foi criado pela Unesco em 1993, após decisão da Assembleia Geral das Nações Unidas para alertar sobre as impunidades cometidas contra jornalistas perseguidos por informações apuradas e publicadas. Neste ano, a relação entre imprensa e democracia será o tema principal dos debates, que serão realizados em Adis Abeba, na Etiópia. Em 23 anos, 64 profissionais executados O Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) relata que, entre 1995 e 2018, foram cometidos 64 assassinatos decorrentes do exercício do jornalismo no Brasil. “Vivemos um dos momentos mais obscuros da história do Brasil, razão pela qual a liberdade e a rigorosa imparcialidade da imprensa se tornam imprescindíveis”, diz o presidente Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado, Paulo Zocchi. Com 13 homicídios, o Rio de Janeiro foi o Estado que mais registrou esse tipo de crime. A Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) apurou quatro agressões, dois ataques e sete ofensas pela internet a profissionais de comunicação neste ano. Dados mundiais O Observatório da Unesco registrou que 99 jornalistas foram mortos no ano passado, no mundo. Entre 1994 e 2018, foram 1.307 profissionais assassinados. “A impunidade por crimes cometidos contra jornalistas é uma ameaça que afeta toda a sociedade. A ameaça exige de nós um constante estado de vigilância. Devemos agir de forma conjunta para proteger a liberdade de expressão e a segurança dos jornalistas”, destaca a diretora-geral da entidade, Audrey Azoulay. A maioria dos crimes foi contra comunicadores da televisão (45%), seguida por profissionais de mídia impressa (21%), mídia mista (19%), rádio (9%) e veículos on-line (6%).