[[legacy_image_18732]] Na história recente do Japão, poucos líderes chegaram perto da popularidade que alcançou o agora ex-primeiro-ministro Shinzo Abe. Sua aprovação foi fruto do plano econômico Abenomics, que possibilitou o retorno do crescimento, ao controlar a deflação e a supervalo-rização do iene. Por isso, a entrevista coletiva que o ex-premiê realizará, agora que a sessão extraordinária da Dieta nacional, o parlamento japonês, terminou, é importante para o rumo político do país em 2021, ano com voto popular marcado para outubro. Liderados pelo parlamentar Yukio Edano, do Partido Democrático Constitucional do Japão (PDCJ), os partidos de oposição denunciaram, no início do ano, um banquete para a contemplação de flores de cerejeira, em abril de 2018. Segunda a oposição, a tertúlia clientelista para cerca de mil convidados fora bancada com dinheiro dos impostos dos contribuintes. Esta semana, promotores públicos pediram que Abe se pronuncie sobre banquetes anuais em hotéis, aparentemente subsidiados por um grupo de apoiadores, encabeçados por um de seus assessores públicos. Abe não é acusado de infringir nenhuma lei. Mas investigadores do escritório da procuradoria pública de Tóquio querem ouvir seu lado da história sobre essas reuniões suntuosas. O atual líder do governo, Yoshihide Suga, foi questionado por parlamentares da oposição sobre suas afirmações a respeito de presentes dados por seu predessessor, numa potencial quebra do código de conduta. Veículos da mídia, incluindo a rede estatal NHK, afirmam que o gabinete de Abe ajudou a cobrir um valor de 8 milhões de ienes, o equivalente a R\$ 400 mil, nos últimos cinco anos, com gastos em festas realizadas em hotéis de luxo. No Japão, políticos são proibidos de entregar qualquer coisa que possa ser interpretada como um presente, aos parlamentares. A regra é tão rígida que, em 2014, um ministro de gabinete foi exonerado depois de distribuir leques durante o verão. Suga está sendo conectado ao escândalo, pois era chefe do gabinete de Abe no termo de 2012 a 2020. Edano afirma que as revelações feitas pela mídia significam que Abe mentiu ao parlamento quando disse que seu escritório não havia subsidiado as festas. “Suga não pode escapar de sua responsabilidade no caso”, diz Edano. Shinzo Abe deixou o cargo de primeiro-ministro em setembro, por problemas de saúde. Mas continua como parlamentar da câmara baixa. Antes da questão ir ao escritório da promotoria pública de Tóquio, a oposição havia demandado respostas às acusações, durante sessão parlamentar na quarta-feira da semana passada, dia 2, mas o Partido Liberal Democrata recusou conceder resposta ao pedido, considerando-o “despropositado”. Sobre o autor - Yukio Spinosa é jornalista, intérprete, tradutor e consultor para prospecção de produtos da Indústria Japonesa. Ele escreve na coluna Conexão Mundo, do jornal A Tribuna, quinzenalmente, às sextas-feiras.