Há um ano, eu escrevia sobre o fantasma da fronteira, que voltava a assombrar as duas Irlandas devido aos rumos indefinidos em relação ao Brexit – que, atualmente, permanecem em stand by, diga-se de passagem. E embora o Acordo de Belfast, firmado na Sexta-Feira Santa de 1998, esteja longe de ser violado pelos dois lados dos governos (britânico e irlandês), o passado que é tão recente tem batido repetidamente à porta com a possibilidade de concretização da saída do Reino Unido da União Europeia. Na última sexta-feira, Sexta-Feira Santa, inclusive, a cidade de Londonderry, um dos maiores pontos de conflitos entre católicos/nacionalistas e protestantes/unionistas, foi palco de um “ataque terrorista”, realizado por militantes nacionalistas (dissidentes do antigo IRA, o Exército Republicano Irlandês) que se opõem ao tratado de paz, segundo informações da polícia local. Cerca de 50 coquetéis molotov foram lançados e dois carros incendiados durante o tumulto. A jornalista Lyra McKee, que acompanhava o incidente junto da polícia, foi baleada e morreu em seguida. Nessa terça-feira (23), em um comunicado codificado ao jornal norte irlandês The Irish News, o Novo IRA admitiu a culpa na morte da jornalista, enviando “sinceras desculpas à parceira de Lyra McKee, família e amigos”. Segundo o anúncio, o atirador estava mirando na polícia durante o confronto, quando acabou atingindo Lyra. “No intuito de atacar o inimigo, Lyra McKee foi tragicamente morta ao lado das forças inimigas”, disse a declaração. O grupo ainda afirmou que o confronto foi provocado após uma incursão das forças da coroa britânica fortemente armadas no bairro nacionalista na noite anterior à Sexta-Feira Santa. No sábado, o Saoradh, um partido revolucionário que reflete o pensamento do Novo IRA, marchou em Dublin para comemorar 103º aniversário da Independência da República da Irlanda, declarada dia 24 de abril. Durante a “comemoração”, tanto em Belfast e em Dublin, os militantes pediram desculpas pelo incidente com a jornalista. Lyra McKee, de 29 anos, era considerada uma promessa do jornalismo investigativo atual e estava prestes a lançar seu primeiro livro Angel With Blue Faces, uma investigação do assassinato de Robert Bradford, membro do Partido Unionista de Ulster (província da República da Irlanda e Irlanda do Norte), morto pelo IRA em 1981. Além desse livro, a jornalista também trabalhava em outro título, com lançamento previsto para 2020: The Lost Boys. Centrava-se nos desaparecimentos não resolvidos de crianças e homens jovens durante a época de conflitos na Irlanda do Norte. Embora o Brexit não seja o responsável por todos os acontecimentos recentes, acredita-se que ele seja, de certa forma, um estopim para os dissidentes do IRA voltarem a se manifestar. Mas fica a indagação, tanto ao exército “católico”, quanto aos extremistas de qualquer outra religião: quando a humanidade vai aprender que ninguém é melhor do que ninguém e que nenhuma justificativa, quiçá religiosa, é motivo para derramar sangue? Que Lyra seja lembrada pela maneira que viveu e pelas causas em que se engajou, e não pela forma como deixou esse mundo, onde a paz é cada vez mais frágil.