Na última semana, o Brasil virou pauta mundial, e não foi diferente aqui na Irlanda. As queimadas na Amazônia estamparam capas de jornais e revistas, fazendo parte, inclusive, dos plantões diários dos noticiários de TV daqui. Acontece que o acontecimento está diretamente conectado a outro tópico importante para a Ilha Esmeralda, que é o acordo de livre-comércio entre a União Europeia e o Mercosul. Assim como alguns países, a exemplo de Luxemburgo e França, que começaram a cogitar não assiná-lo diante da atual situação, na quinta-feira passada, foi a vez do primeiro-ministro da Irlanda, Leo Varadkar, ressaltar em comunicado que também não votaria a favor caso o Brasil falhasse em manter os padrões de proteção ambiental, incluindo da floresta Amazônica. Antes que algumas pessoas comecem a tirar conclusões sobre a reação dos líderes desses países ao que, aparentemente, é um crime ambiental, é preciso entender que, ao longo de toda a negociação do acordo, questões climáticas, ambientais e de sustentabilidade entraram em pauta. O tratado entre União Europeia e Mercosul possui um capítulo exclusivo dedicado, especialmente, ao comércio e desenvolvimento sustentável, cuja premissa central é que não seja realizado em detrimento do meio ambiente ou das condições de trabalho. Por exemplo, algumas das contribuições determinadas pelo Brasil, sob o Acordo de Paris, incluíam compromissos para alcançar zero desmatamento ilegal na Amazônia, a restauração e reflorestamento de 12 milhões de hectares de florestas e a melhoria do manejo sustentável das florestas naturais, visando conter práticas ilegais e insustentáveis. Além disso, ainda é reforçada a iniciativa de frigoríficos brasileiros não fornecerem carnes de fazendas em áreas recentemente desmatadas. Devido ao acordo de livre-comércio, o governo irlandês tem sido criticado frequentemente por organizações de produtores de carne daqui, que temem que a importação de carnes do Mercosul prejudique a produção irlandesa, atualmente submetida a rigorosos padrões pela União Europeia. Para o presidente da Associação de Fazendeiros da Irlanda (IFA), Joe Healy, “embora agricultores tenham ficado indignados com o recente acordo comercial, que ainda não foi concluído, o verdadeiro escândalo é que quantidades significativas de carne bovina abaixo do padrão exportadas pelo Brasil já estão chegando no mercado europeu”, afirma. “É uma concorrência desleal, pois temos ciência que os produtores de lá usam e abusam de hormônios, queimam o equivalente a um campo de futebol de floresta a cada minuto para expandir sua produção”, desabafa. Até o acordo ser firmado, o primeiro-ministro Leo Varadkar tenta acalmar a população, pois o livre-comércio pode ter pontos positivos num cenário de Brexit sem acordo, onde a Irlanda perderia mercado, já que grande parte da exportação é feita para o Reino Unido. O primeiro-ministro ainda promete continuar monitorando as ações ambientais do Brasil. “Não há como cobrar dos produtores irlandeses e europeus que usem menos pesticidas, menos fertilizantes, abracem a biodiversidade, plantem mais terras, se fizermos acordos com outros países que não seguem os mesmos padrões ambientais, trabalhistas e de qualidade”, explica. Enquanto parte do mundo cada vez mais se mobiliza e se atenta ao tema da sustentabilidade, das mudanças climáticas e do meio ambiente, algumas lideranças seguem na contramão. É certo que já passou da hora do atual chefe de Estado do Brasil ter maior coerência em seus atos, além do equilíbrio e maturidade exigidos pelo seu cargo, levando a sério os compromissos assinados com outros líderes mundiais – que não são nem um pouco inocentes, tampouco alienados, o que aparenta ser o caso de parte da população brasileira.