O primeiro alerta foi dado na terça-feira, dia 19: “Fique em casa”. Nesse dia, Sydney amanheceu cinza. O cheiro de fumaça era perceptível em várias partes da cidade. Em alguns lugares os olhos chegavam a arder. Nas escolas, lembrando que parte delas nem estava aberta, os estudantes permaneceram dentro das salas de aula. Outros alertas se repetiram na semana e a tendência é que eles farão parte da rotina dos próximos meses. Os alertas ocorrem por causa dos incêndios que consomem as florestas ao redor de Sydney. Enquanto escrevo a coluna, mais de 50 focos de incêndios continuam queimando; a maior parte ainda incontroláveis. Mesmo sendo um país imenso como o Brasil, os incêndios por aqui são muito mais próximos das regiões urbanas. O problema é que não é apenas em Sydney. Outros estados do país enfrentam crise semelhante. A gravidade é tamanha que existe um app para que a população tenha em tempo real a localização dos incêndios e possa e preparar para evacuar, caso seja necessário. Todos precisam prestar atenção aos alertas dos bombeiros para se preparar, ter um plano e sair das regiões afetadas. Em alguns casos, o fogo se alastra com tamanha rapidez que não há escapatória. Até o momento, há quatro vítimas fatais, mais de 250 casas foram queimadas e o impacto na vida selvagem é imensurável, com a perda de pássaros, cangurus, répteis, entre outros. Pelo menos 350 coalas foram encontrados mortos. Os pequenos animais, símbolo da Austrália, são os mais afetados nos incêndios, pois ficam no alto das árvores e não são ágeis o bastante para fugir do fogo. É verdade que os incêndios florestais ocorrem com certa frequência na Austrália. No entanto, cada vez mais eles vêm mais cedo e com mais intensidade. O controle dos incêndios está sendo feito por bombeiros do mundo inteiro – voluntários e pagos – que não medem esforços para combater a enorme escala e ferocidade dos mega-incêndios. Mas o desafio tem sido enorme. Os incêndios têm sido considerados sem precedentes por bombeiros, políticos e estudiosos do clima. Os ingredientes para a crise vêm da combinação de baixa umidade, temperaturas altas, velocidade do vento e alguns outros fatores. Mas o que chama a atenção é que a “temporada de incêndios” tem tido um início precoce e fim tardio. Eu não consigo encontrar razão para não associar a potência dos mega-incêndios às mudanças climáticas. Em recente artigo publicado no Sydney Morning Gerald, Greg Mullins, do Conselho do Clima e ex-comissionário do Departamento de Combate a Incêndios do estado de Nova Gales do Sul (NSW, na sigla em inglês), comentou que algo está fora do normal. Segundo Mullins, os piores anos de incêndio em NSW foram quase sempre durante um evento de El Nino. Grandes perdas de propriedades e vidas humanas e selvagem geralmente ocorreram do final de novembro a fevereiro. Com base em mais de um século de observações climáticas, a temporada oficial de incêndios ocorre entre 1º de outubro a 31 de março. No entanto, desde 2000, há incidência de incêndios começando em agosto e setembro e, em alguns casos, até abril. Os incêndios de outubro de 2013 que destruíram mais de 200 casas foram os primeiros incêndios de grande perda na história de NSW – novamente, não durante um El Nino. Este ano, no início de novembro, as perdas já são comparáveis à desastrosa temporada de incêndios florestais de 2001-2002. Outro dado importante é que os incêndios estão queimando locais inesperados, como florestas tropicais no norte de NSW, regiões de Queensland e até áreas úmidas da Tasmania. Outro fenômeno em crescimento são as tempestades e ciclones de fogo. Diante de tantas más notícias o jeito é esperar pelo melhor. Torcer para que a chuva venha e que o pior não esteja por vir. Porque, afinal, o verão ainda nem começou. Sobre a autora Fabiana Marinelo é profissional de comunicação empresarial e jornalista. Ela escreve na coluna Conexão quinzenalmente, às sextas-feiras.