[[legacy_image_9607]] Quem conhece pouco da política argentina poderia pensar que Cristina Kirchner, candidata a vice-presidente pela principal chapa de oposição, será a governante de facto do país. Mas não é bem assim. Apesar de ser a principal força política do país, Cristina não teria tido a possibilidade, sozinha, de representar uma solução da esquerda. O motivo é seu elevado índice de rejeição, gerado por sucessivas denúncias de corrupção. Ela é ré em pelo menos cinco processos – há outros sete em fases preliminares de preparação – e só não foi julgada ainda porque, como senadora, conta com foro privilegiado. Além disso, seu patrimônio aumentou exponencialmente durante sua vida política. A leitura que Cristina soube fazer ao definir sua chapa, talvez observando o que aconteceu no Brasil em 2018, é que se ela tivesse escolhido sair candidata a presidente, sua rejeição poderia facilitar a reeleição de Mauricio Macri, mesmo com os problemas econômicos que este não pôde resolver. Ao colocar Alberto Fernández como cabeça de chapa, o peronismo neutralizou parte da rejeição. Entre um quarto e um terço do eleitorado vota sempre em candidatos peronistas, seja quem for. Estes votos, que se confundem ou se somam aos dos eleitores de Cristina, devem dar a vitória à chapa em outubro. Se Alberto Fernández for realmente confirmado presidente, Cristina Kichner será, isso sim, presidente do Senado. A dupla função é garantida pela Constituição e entendida como uma forma de estender uma ponte entre o Poder Executivo e o Congresso. Mas se engana quem pensa que Cristina governará das sombras e que Alberto Fernández será sua marionete. Quem conhece a trajetória de Fernández e acompanhou a escolha de seu nome garante que ninguém, nem mesmo Cristina, tem o poder de dizer a ele o que fazer ou pensar. Alberto Fernández foi chefe de gabinete de Néstor Kichner de 2003 a 2007, considerado um bom governo por muitos argentinos. Néstor não tentou se reeleger, preferindo emplacar sua esposa, Cristina, como presidente a partir de 2007. Fernández manteve o posto por sete meses, mas renunciou em julho de 2008 após um conflito com o “campo”, ou seja, os grandes produtores agrícolas do país, dotados de grande poder por aqui. Passou, assim, a ser um crítico moderado do governo de Cristina. De lá para cá, Fernández chegou a se aliar com diferentes forças políticas, sempre ligado à esquerda. Em maio de 2019, ele chegou a um acordo com Cristina para ser cabeça de chapa, em um gesto entendido como uma reconciliação de setores da esquerda. Com ele, muitos governadores que haviam se distanciado de Cristina se sentiram à vontade para apoiar novamente um candidato peronista, formando uma espécie de coalizão. Como resultado, Fernández obteve 47% dos votos nas eleições primárias, 15 pontos percentuais mais que o atual presidente, Mauricio Macri. O resultado não é vinculante, servindo mais como uma grande e cara pesquisa de opinião – há quem defenda, inclusive, que as primárias deveriam ser extintas. A vitória de Fernández nas primárias por tanta diferença, contudo, gerou no país a sensação de que o resultado já está sacramentado. Parte do sucesso de Fernández se deve ao fato de ele ser considerado um kichnerista mais ligado a Néstor, morto em 2010, do que a Cristina. Néstor inspira melhores recordações que ela: durante a sua presidência, o país cresceu ao sabor do superciclo das commodities agrícolas, que pautam as exportações argentinas, em uma época em que o Brasil, o principal aliado comercial da Argentina, também vivia um bom momento econômico.