[[legacy_image_309584]] Desde o último dia 7, quando militantes do Hamas dispararam foguetes e atacaram por terra, o Oriente Médio registra mais um conflito, mas desta vez, segundo analistas, considerado o maior ataque da história a Israel. Segundo o balanço do jornal israelense Haaretz já são 10,4 mil mortos – do lado israelense, 828 civis e 338 soldados, além de 241 reféns levados para Gaza. A maior parte dessas perdas se refere ao dia 7, quando os terroristas invadiram casas, com granadas jogadas em bunkers, kibutizim, estradas e uma festa de música eletrônica, com um implacável banho de sangue. Do lado palestino, o governo local conta 9.227 mortes, a maioria de civis, como crianças, devido aos bombardeios constantes. Na Baixada Santista, integrantes das comunidades árabe e judaica, com familiares na região do conflito ou que viveram por lá, enfrentam uma angústia constante, mas têm uma esperança em comum: um acordo pela paz. Israelenses A consultora Andreia Naslauski, de 37 anos, saiu de Santos para estudar Sociologia em Israel, onde morou 20 anos. Lá, casou-se, teve dois filhos e não voltou mais – até começar a guerra. Mesmo morando em uma região que considerava a mais segura em Israel, ela conta que toda a tensão que paira sobre as cidades fez com que tomasse a decisão de voltar com os filhos de 5 e 7 anos para o Brasil no último dia 23, onde já estava o tio dela, o economista aposentado Jorge Naslauski, de 71 anos (leia mais abaixo). Andreia morava em Zichron Yaakov, 70 km ao norte de Tel Aviv. [[legacy_image_309585]] “Lá não teve bombardeio e nenhuma sirene tocou desde que começou a guerra. Mas, a gente não consegue ficar tranquilo. Eu estava sem dormir há muitos dias”. Mesmo sem bombardeios, as aulas foram suspensas e apenas os comércios e serviços essenciais estavam funcionando. Ela conta que dos amigos que fez quando morou em um kibutz (fazenda coletiva) próximo a Gaza durante a faculdade, a maioria foi morta nos ataques do dia 7. A brasileira conta que ficava a todo momento pensando em como proteger os filhos e já havia até elaborado planos para caso algum terrorista invadisse sua casa. “É muito triste dizer isso, mas eu tinha um bunker na minha casa e ele estava munido em caso de bombardeio”. O bunker é uma construção de ferro e concreto no subsolo com mantimentos, água e armamentos armazenados. Por possuir bunker, Andreia acolheu uma amiga brasileira que não tinha onde se proteger. No dia 7, a consultora acampava com os filhos, a amiga e a filha dela na fronteira com o Líbano. “Minha amiga mora em Tel Aviv e como não tinha bunker, ficou na minha casa durante uma semana e em seguida voltou para Recife. Agora que eu vim para cá e um menino que teve a casa evacuada agora está na minha (em Israel). O legal em Israel é que há muita solidariedade”. Jorge Naslauski, tio de Andreia, conta que a preocupação não é só com familiares, mas com a nação como um todo. “Embora todos nós sejamos brasileiros, os nossos antepassados são de lá, quase todos os judeus têm parentes lá”. Frequentador da sinagoga Beit Sion, em Santos, Jorge afirma que a paz depende da negociação – que Israel devolva a Cisjordânia e acabe com as colônias, faça com que Gaza fique com os palestinos e que seja reconhecida a existência de Israel. “Não adianta ficar falando que Palestina é terrorista porque não é verdade, ou que judeu é nazista porque não é verdade. A maioria quer paz, mas estão representados pelos senhores da guerra”, comenta Naslauski. “Aqui as colônias árabes e judaicas sempre tiveram um profundo respeito uma pela outra. Temos visto alguns ataques na Europa, mas graças a Deus no Brasil a gente não vê isso”. Palestinos Há 53 anos, o aposentado Loutfi Moubarec chegou ao Brasil com a família. Primeiro morou em Goiás e depois se mudou para Santos, onde vive até hoje. Ele afirma ser o único da comunidade árabe da Baixada Santista que possui parentes nos territórios palestinos. Irmã, cunhado, primos e sobrinho dele estão na Cisjordânia, onde também há focos da guerra. A Cisjordânia fica entre Israel e a Jordânia, enquanto a Faixa de Gaza está no lado oposto, um enclave entre Israel e o Egito. [[legacy_image_309586]] Os parentes de Moubarec vivem em Ramallah, 32 km ao norte de Jerusalém. “Eles me contam que tem faltado tudo, como comida, água e remédio. Energia e internet funcionam no máximo quatro horas por dia e, às vezes, faltam o dia todo, pois são controlados por Israel. Minha irmã tem uma mercearia pequena, mas não tem muito o que vender”. A irmã relata ruas desertas, comércios fechados e aulas em escolas e universidades paralisadas. “Ela me mostra as ruas e você não vê ninguém circulando. Ela só fica em casa e se preocupa com o filho de 31 anos, que é motorista de ambulância. Quando liga e começa a contar, chora, então a gente tenta cortar e falar de outro assunto”. Mesmo com tanta dificuldade, a família não pensa em vir para o Brasil. “Eles não pretendem sair, pois dizem que é como se estivessem sendo expulsos de suas casas, e não querem isso. Nós ainda temos propriedades lá. Eu mesmo só saí de lá forçado pela minha família, quando era adolescente”. Loutfi tinha o costume de a cada dois anos visitar a irmã na Cisjordânia. Com os laços de sangue e de coração presenciando a guerra de perto, Moubarec teme pelo seu povo. “A gente gostaria de um acordo de paz entre as partes e todo mundo viver em paz. É a única coisa que a gente deseja. E, claro, parar a matança de civis, que não têm nada a ver com isso”. Para o representante da comunidade árabe na Baixada Santista, Salah Mohamad Ali, quem vive em Gaza está em uma prisão a céu aberto, pois são privados de receber água, alimento, e outros tipos de donativos. “Estão acabando com a vida e a esperança dos palestinos lá da Faixa de Gaza”. Segundo Salah, os palestinos vêm sofrendo há anos por terem que sair de suas terras. Mesmo com isso, ele afirma que a comunidade faz súplicas a Deus para que a guerra logo se encerre e que haja um acordo de paz para que cada lado fique com um território e seja possível viver em harmonia. “O símbolo da Palestina agora é uma chave, pois cada família que saiu de lá tem uma história e só conseguiu guardar a chave dessa casa como forma de dizer que um dia vai voltar para a terra. Viver em paz é a única coisa que as pessoas querem. Não querem armas, não querem vidas inocentes. Eles querem os direitos que foram acertados para o país, só isso”. “Não existe consenso e essa é a problemática” , Fabiano Lourenço de Menezes, coordenador do curso de relações internacionais da Unisantos Para o coordenador do curso de Relações Internacionais da Universidade Católica de Santos (UniSantos), Fabiano Lourenço de Menezes, o conflito é uma tragédia humana que não possui expectativa de pausa humanitária. “Não existe consenso e essa é a problemática. É uma situação perplexa, de impacto moral, que quem está tendo que pagar por isso é o povo”. Conforme o professor, uma possível intervenção de outros componentes no conflito, como Irã e Hezbollah, estabelecido no Líbano, além dos EUA e Rússia, causaria circunstâncias catastróficas. “É um conflito que envolve grandes poderes. O Brasil está neutro nessa situação e isso é importante para tentar a paz através de uma possível articulação em prol de um diálogo”, afirma. A guerra ainda não resultou em grande impacto econômico mundial, mas segundo Menezes, caso haja a interferência de outras nações, esse pode ser um dos efeitos. Como reflexos principais, o especialista cita o risco da disparada do petróleo e do dólar, criando um efeito cascata em outros setores da sociedade. Por isso, ele afirma que o importante é que seja restabelecida a paz. “Toda essa região sempre viveu e passou por muitas perseguições, mas ao mesmo tempo sempre conviveram. Se olharmos para as diferenças em termos culturais, não há. Pelo contrário, há mais semelhanças, então o melhor seria viverem juntos. Mas, no momento, é quase impossível imaginar uma convivência”.