[[legacy_image_159765]] Aquele que é chamado de ‘o mais famoso filme ilegal da história’ completa hoje 100 anos. Polêmicas à parte, Nosferatu, de Friedrich Wilhelm Murnau, sobrevive ao tempo como um pilar do Expressionismo alemão, escola que influenciou parte do que se fez no cinema francês e americano nas três décadas seguintes. Além disso, é um dos primeiros filmes de terror já produzidos. “Era bem característico dessa época, a escola alemã do momento, ajudou a definir parâmetros ao cinema que viria depois. Além da polêmica de não ter sido autorizado”, comenta o jornalista e cinéfilo Gustavo Klein. Nosferatu nasceu por força e obra do alemão Albin Grau, ex-soldado na 1 Guerra Mundial, que se encantara pela tradição das histórias de vampiro do leste europeu. Há, inclusive, um relato de que um camponês da Sérvia teria segredado a Albin que seu pai fora ele próprio um vampiro. Mera história de guerra ou não, fato é que, ao retornar para a Alemanha, a primeira coisa que Albin fez foi fundar a Prana Film e contratar o roteirista Henrik Green, além do próprio diretor Murnau, para adaptar o livro Drácula, de Bram Stoker, de 1897. Aí começaram os problemas. A viúva de Bram Stoker (que morrera em 1912), Florence, se negou a vender os direitos da obra para adaptação. Mesmo assim, Albin foi adiante no projeto, alterando nomes de personagens e lugares. E introduziram uma novidade que ficaria para sempre: a ideia de que a luz do sol mata os vampiros. Mas ao ficar sabendo da ‘traquinagem’, Florence entrou com uma ação por violação de direitos autorais, pedindo as compensações devidas e a destruição de todas as cópias do filme. Ela ganhou o processo. Mas a sorte ajudou Nosferatu: algumas cópias escaparam do extermínio e foram parar nos Estados Unidos, onde Drácula, o livro, já era de domínio público. Assim, não precisaram ser destruídas e puderam ser exibidas à luz do dia, garantindo a eternidade ao morto-vivo. Linguagem do cinema Para o jornalista e crítico de cinema André Azenha, Nosferatu tem vários pontos a serem destacados. O mais importante deles é o fato de estar inserido no contexto do Expressionismo alemão. “O Expressionismo ajudou a moldar a linguagem do cinema, que antes bebia na fonte de outras artes, como a Literatura e o Teatro. O Expressionismo introduziu elementos como maquiagem, câmeras, cenários, ângulos distorcidos, dando uma roupagem própria a essa arte”. Os filmes clássicos de terror produzidos pelos estúdios Universal na década de 1930 (entre eles, Drácula, com Bela Lugosi) e os chamados filmes noir das décadas de 1940 e 1950 são filhos diretos da estética marcante de luz e sombra do Expressionismo alemão, aponta André. “A própria concepção de Batman nos quadrinhos bebe nessa fonte”. E não só nos quadrinhos: o novo The Batman, nos cinemas, também tem forte influência da estética expressionista. Já especificamente Nosferatu teria inspirado o visual de personagens como Edward Mãos de Tesoura, de Tim Burton, e o Zé do Caixão. Arquétipo O também jornalista e cineasta Eduardo Ricci dá um passo além e avalia que Nosferatu tem o mérito de trabalhar as dores da realidade, os medos e anseios do ser humano. “O vampiro é o monstro; o filme trabalha as angústias da alma humana, de ser bom e ser ruim”. Já o Expressionismo também dialogava com a Alemanha de então, arrasada pela Primeira Guerra Mundial, Esse panorama se reflete nos cenários sombrios e na densidade dos filmes. “Arquétipo da dualidade entre luz e sombra, do homem que quer viver o melhor dos mundos, mas acaba como uma besta”. Enredo O corretor de imóveis Knock recebe a incumbência de encontrar uma casa na cidade de Wisborg para um conde Orlok, nos Cárpatos. Knock envia um empregado Thomas Hutter com a tarefa de ir pessoalmente apresentar ao conde uma casa em frente à sua própria. A figura do conde Orlok é grotesta: pálido e raquítico, com orelhas pontudas. Ao acidentalmente ver uma foto da esposa de Hutter, Ellen, Orlok se encanta e decide de imediato pela casa oferecida. Ao chegar em Wisborg, em um navio em que todos são mortos, Orlok vai deixando um rastro de destruição, até conseguir entrar nos aposentos de Ellen para beber o seu sangue. Encantado por ela, se esquece do ‘canto do galo’. Quando o sol nasce, o vampiro desaparece. Expressionismo O movimento expressionista nasceu como tal na pintura, especialmente com Van Gogh, Edvard Munch e El Greco, no século 19 e início do 20, e se caracterizou pela distorção da imagem, com uso de cores berrantes, com toques de sobrenatural, de exaltação do Gótico e em oposição a um crescente racionalismo na sociedade. O expressionismo alemão no cinema incorporou os elementos da distorção de cenários e personagen, através da maquiagem, e da própria destruição imposta ao país após a Primeira Guerra Mundial. Dentre os principais filmes realizados sob essa estética, estão O Gabinete do Dr. Caligari (1920), O Golem (1920) e Fantasma (1922), Metropolis (1927) e M, O Vampiro de Dusseldorf (1931).