[[legacy_image_239854]] Bater escanteio e ir pra área cabecear é uma metáfora extraída do futebol para designar o sujeito que é um verdadeiro faz tudo. Se essa regra fosse aplicada ao samba, especificamente ao Carnaval santista, a metáfora poderia ter apenas um nome: Drauzio Antônio da Cruz. Fundador da lendária escola Império do Samba, fosse na avenida ou nos bastidores pulsantes do barracão, na organização ou no estímulo ao Carnaval santista – tudo teve um dedo e um gingado dele. Não é à toa, a passarela do samba santista leva seu nome. E, agora, um livro conta a história da sua vida, a par e passo com a folia em Santos. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! “Como sambista, ele tem um nome enorme, foi uma figura ímpar: ele foi a própria referência história do samba. Se Santos teve o segundo maior carnaval do Brasil, teve muito a ele”, comenta Jadir Muniz de Souza, autor de O Imperador do Samba – A História de Drauzio da Cruz, obra realizada com verbas do 9o Concurso de Apoio a Projetos Culturais Independentes (Facult), que será lançada hoje, às 29 horas, no Teatro Guarany (Praça dos Andradas, 100). “No final dos anos 40, ele já foi considerado o melhor baliza do Estado, no tempo ainda dos ranchos carnavalescos”, acrescenta Jadir. Originários do Rio de Janeiro, os ranchos eram como blocos carnavalescos; tinham cada um o seu rei e rainha e o cortejo costumava tocar marchas-rancho, de ritmo mais compassado do que o samba. Já o baliza, havia de três tipos: o abre-alas, vinha na frente, apresentava o bloco; o malabarista, que utilizava o corpo em piruetas; e o que rodava um bastão. Em 1949, ele foi considerado o melhor malabarista do Estado. Nessa época, ninguém chegava a melhor baliza do nada. Mas Drauzio queria mais: queria ser um ‘bamba’, admirado por suas façanhas tanto como dançarino nos salões de gafieira, quanto nas rodas de batucada-braba, onde imperava a luta na base da pernada – que era quase uma capoeira. Drauzio reunia tudo isso. E uma vontade de ter as coisas do seu jeito. Império do SambaJá na Escola de Samba Brasil, em 1954, ganhou novamente o prêmio de melhor baliza; a escola, por sua vez, foi campeã do Carnaval de São Paulo, por ocasião do 4o Centenário da cidade. A medalha foi colocada em seu peito então governador Lucas Nogueira Garcez. Após um desentendimento na escola, resolveu fundar o seu próprio império. “Ele era intrépido. Esquentava a cabeça, às vezes. Ele já era conceituado e não aceitava muita coisa, tinha visão à frente. No fim, queria fazer a sua escola de samba”. Nascia, assim, a Império do Samba, em 1955. Pelas artes e perseverança de Drauzio, que chegou a manter intercâmbio com a Escola Império Serrano, do Rio de Janeiro, trazendo de lá sambistas para atuar no desfile daqui, em 1965, a Império já era campeã do Carnaval santista. Um ano depois, veio o bicampeonato santista. Nos anos seguintes, a glória: foi tetracampeã do Carnaval estadual, disputado em Santos, entre os anos de 1967 e 1970. Além das escolas de São Vicente, Guarujá, Cubatão e Santos (representada por, além da Império, X-9 e Brasil), participaram agremiações de São Paulo, Campinas e Ribeirão Preto. Diplomacia carnavalescaA Império esteve ainda vinculada à fundação de outras escolas de samba. Vai-Vai, Nenê de Vila Matilde e Mocidade Alegre, todas da Capital, são exemplos. Essa característica de Drauzio, de importar e exportar sambistas e carnavalescos, foi um dos pilares da ascensão e prestígio do Carnaval santista no Brasil, entre as décadas de 60 e 80. O samba para Drauzio era tão sem fronteiras, que ele chegou a ser Rei Momo de São Paulo, em 1990. Posteriormente, em 1992, empunharia o cetro do Carnaval também em Santos. Mas e a Império do Samba? O tempo passa e as relações se desgastam, modificam-se. A partir da segunda metade dos anos 70, divergências começaram a dar o tom do repique. Entre 1981 e 1985, a escola não desfilou e se despediu em definitivo da passarela. No livro, Jadir reproduz o que pensava Drauzio sobre o samba, à época: “É tudo de mentira (...) agora, a gente sai empunhando um enfeite, mexendo os braços, andando. Não tem mais aquele negócio de se mexer inteiro, sambar no pé, pé no chão, levantando poeira”. A paixão pelo samba era a paixão pela vida. Drauzio teve oito filhos, de vários relacionamentos. Nascido em 14 de julho de 1929, morreu em 17 de setembro de 1994, aos 65 anos. Mais velho de sete irmãos, na adolescência trabalhou como ajudante de pedreiro, em padaria, em cemitério. Mas foi no ritmo da estiva que sambou a vida – e marcou para sempre o Carnaval. “Drauzio era um sambista completo. E, além de tudo, era um excelente professor... Fazia de tudo um pouco na escola de samba. O seu nome foi além das fronteiras do Estado, chegando até o Rio de Janeiro”. Como se escreveJadir Muniz usa a grafia ‘Drauzio’ para se referir ao primeiro nome do sambista. Mas há por aí escrito de todas as formas possíveis: ‘Dráuzio’, ‘Drausio’ e ‘Dráusio’. Por exemplo, no Macuco, a placa da rua em homenagem a ele está como ‘Dráuzio’. Na Wikipédia, no verbete relativo à passarela do samba santista, aparece como ‘Dráusio’. No portal da Prefeitura de Santos, aparece como ‘Dráusio’ e ‘Drauzio’. Mas qual é a grafia correta? “Tive contato com certidões de casamento, óbito, carteirinha da estiva, sindicato, santinho de velório... e de fato foi escrito de várias formas. (Adotei o Drauzio) pelo irmão dele (Alexandre Cruz, com 85 anos hoje), o familiar mais próximo”.