[[legacy_image_151430]] De repente, após algum momento dramático no palco, aquele homem de óculos, invariavelmente de terno e cabelos bem penteados para trás, levantava o braço, apontava o indicador ao céu e anunciava: “nossos comerciais, por favor!”. Quem assistiu tevê entre as décadas de 1950 e de 1980 por certo se recorda de Flavio Cavalcanti, um dos maiores comunicadores que o País já teve. Agora, 36 anos após sua morte, o filho Flavio Cavalcanti Jr. acaba de lançar Senhor TV – A Vida com meu Pai, Flavio Cavalcanti, um livro de memórias pessoais – e da própria trajetória da tevê brasileira. “Achei que estava na hora de resgatar algumas histórias dele, a uma juventude que não conheceu. A ideia é não deixar morrer a memória dele”. E essa memória é não só a da intimidade desfrutada pelo filho, mas também a de quem trabalhou por quase uma década na produção do programa do pai, na TV Tupy. Essa é justamente a parte mais deliciosa do livro, que resgata um pedaço do que era fazer tevê no Brasil entre os anos 70 e 80. [[legacy_image_151431]] O início A carreira de Cavalcanti na telinha começou ainda em meados dos anos 50, por força e obra do empresário do varejo Abraham Medina – pai de Roberto Medina, idealizador do Rock’n’Rio –, que não queria nada além do que... vender aparelhos de tevê! “No começo da televisão, os programas eram ruins, praticamente rádio com imagens, e os aparelhos eram caros, vindos de fora. Medina teve um raciocínio tão lógico quanto óbvio: para atrair as pessoas a comprarem aparelhos de tevê, era preciso ter bons programas”. Nascia, assim, o Noite de Gala, na TV Rio. Um programa dividido em duas partes: a primeira, de variedades, com shows que contaram até com Sammy Davis Jr.; e a segunda parte, jornalística. Aí entrava o repórter Flavio Cavalcanti. Uma característica do comunicador era o arrojo. “Ele era focado em realizar coisas que as pessoas diziam ser impossíveis”, resume o filho. Foi assim que ‘arrancou’ entrevistas do papa e do presidente norte-americano, John F. Kennedy, por exemplo, entre outras tantas coisas ‘impossíveis’. [[legacy_image_151432]] Polêmico “Papai tinha uma frase, ‘quero que o espectador me assista na ponta da cadeira”, recorda Flavio Jr. No final dos anos 60, o perigo já era a cadeira virar: Flavio comandava dois programas, o Um Instante, Maestro!, que não conhecia meias medidas: Flavio exaltava os álbuns e artistas de que gostava e literalmente quebrava no ar os LPs de que não gostava, para regozijo da plateia e dos telespectadores. O outro programa era o A Grande Chance, para lançar novos valores na música. Além de Alcione, Joana e Emílio Santiago terem nascido à fama nesse palco, Flavio também criou outra moda: a dos júris de calouros. “Depois, todo mundo queria ter um júri”. Estimulada pelo nascimento da Embratel, com a cobertura nacional por satélite, e com o sucesso absoluto de Flavio, a Tupy chamou o apresentador para fazer um único programa que juntasse o jornalismo e a música. Assim, em meados de 1970, estreava nas noites de domingo, das 18 às 22 horas, o Programa Flavio Cavalcanti. Seus principais concorrentes, na Globo, eram Silvio Santos, que ficava no ar de meio-dia às 20 horas, e Chacrinha, que assumia até 22 horas. Como principal arma, a polêmica. “Ele brincava, ‘não sou bonito, não sou simpático, não dou gargalhadas, minha comunicação é mais conteúdo, conteúdo polêmico. É o que eu sei fazer, ficaria falso se eu virasse o Silvio Santos”, relembra Flavio Jr. Momento O programa tinha atrações de peso. Roberto Carlos, por exemplo, estava sob contrato para realizar uma apresentação por mês. “Quando o Roberto se apresentava, o programa dava picos de 60%, 70%”. Em uma dessas ocasiões, Flavio pediu que se incrementasse a apresentação do Rei. Chegou-se a uma ideia ousada: juntar Roberto, Pelé e Chico Anysio, com cada um assumindo no palco a especialidade do outro. Assim, Pelé cantou, Chico muniu-se de uma bola e fez embaixadinhas e Roberto contou uma piada. “Era eu quem ia a São Paulo conversar com o Roberto para acertar a apresentação. Fiquei dois dias pra convencê-lo a contar a piada. Ele era muito tímido”. Deu certo: o programa rendeu 72% de audiência no Rio. [[legacy_image_151433]] Em meados da década, a Tupy começou a apresentar sinais de fadiga. No final dos anos 70, o Programa Flavio Cavalcanti saiu do ar. Ressurgiu em 1983, na Band. Logo depois, foi para o SBT, onde permaneceu no ar até a morte de Flavio, em 26 de maio de 1986. Passagens Sérgio RicardoLogo após o Festival de Música Popular Brasileira de 1967, da TV Record, Flavio convida Sérgio Ricardo ao programa. No festival, incomodado com as vaias e sem conseguir cantar, o cantor e compositor quebrou o violão e o atirou na plateia. Após Sérgio apresentar seu número, Flavio o censurou no ar, ao vivo, pela atitude. O cantor engoliu. Mas quando o programa acabou, partiu para cima do apresentador e lhe acertou um cruzado no nariz. “Papai chegou em casa com o nariz inchado. E bota gelo...”, ri Flavio Jr. SimonalFlavio Cavalcanti fez uma defesa pública do cantor Wilson Simonal em relação à fama de dedo-duro de artistas da ditadura. Simonal havia denunciado à polícia o seu contador, por supostamente roubá-lo, contribuindo para sua prisão ilegal. “Meu pai perguntou ‘quem ele havia dedurado’. Não houve resposta, não há resposta até hoje. Ele errou, deveria pagar por isso, mas não merecia ser sabotado e passar 30 anos no ostracismo”. ViniciusCerta vez. estava combinado que Toquinho e Vinicius de Moraes iriam apresentar a sua canção do momento, Tarde em Itapoã. Porém, apenas Toquinho apareceu. Aparentemente, Vinicius brigara com a sua então mulher, Gesse, bebera demais e perdera o voo. Flavio Jr. não viu problema: Toquinho cantaria sozinho. E comunicou ao pai. A resposta? “Não desiste dele. Pare o que está fazendo e tente trazer o Vinicius de qualquer jeito”. Eram 15 horas. Em uma operação que incluiu convencer Gesse a colocar Vinicius em um avião para Salvador, enquanto Flavio Jr. alugava um táxi aéreo para o trecho seguinte, até o Rio. Às 21h30, Vinicius, ainda um pouco mareado, entrou no palco. “Depois do programa, meu pai perguntou como tínhamos feito. Expliquei. ‘Quem vai pagar tudo isso?’. ‘Nós mesmos’. Ele ficou vermelhor, mas disse: ‘você fez bem, filho”. ArrependimentoUma notícia em um jornal de Minas Gerais chamou a atenção da produção do programa: a história de dois casais que haviam trocado de parceiros. Foi a aposta errada. No palco, todos os personagens, incluindo um delegado, pois a história havia se desenrolado de tal forma, que uma das mulheres não queria voltar para o marido, e o caso foi parar na polícia. “Tudo foi se desenrolando de uma maneira patética. O programa era ao vivo, meu pai só percebeu quando tinha acabado. Se fosse gravado, o quadro teria sido cortado”. Com isso, o programa foi suspenso pela ditadura por 60 dias. “Esse foi um arrependimento. Quando voltou, ele havia perdido um pouco do brilho”.