[[legacy_image_153856]] O encerramento recente das atividades da Livraria Saraiva no Praiamar Shopping, em Santos, causou comoção nas redes sociais pelo simbolismo que traz embutido: afinal, quando um ponto de venda de livros desaparece, é como se a própria experiência da leitura sofresse um baque. Entre 2007 e 2013, o número de livrarias no Brasil cresceu a cada ano, de acordo com levantamento da Associação Nacional de Livrarias (ANL). De 2.600 alcançaram o patamar de 3.029 unidades. Porém, em 2021, dados estimados da entidade apontavam que o número havia caído drasticamente para 2.353 – ou seja, menos ainda do que em 2007. Esse dado corresponde a uma livraria para aproximadamente 90 mil brasileiros, muito abaixo do ideal apontado pela Organização das Nações Unidas (ONU), de uma loja para cada 10 mil habitantes. “Há uma modalidade nova de compra, pela internet, que tem pressionado as livrarias físicas. A pandemia acelerou esse processo”, comenta o diretor Catavento Distribuidora e da ANL, Júlio César Cruz. Santos possui 209 estabelecimentos que vendem livros, segundo a Prefeitura. Nesse rol, podem ser incluídas, por exemplo, papelarias que nunca venderam um livro, mas que foram registradas na atividade. Falando estritamente de livrarias de ofício, não há números certos. Mas Júlio crê que o panorama não é diferente daquele do Brasil e de outras cidades de mesmo porte. “Pelo tamanho e importância, temos a percepção de que a Cidade comportaria mais livrarias”. No entanto, o fechamento da Saraiva, segundo o diretor da ANL, não teve relação com estratégias de mercado, mas com a crise enfrentada pelo Grupo Saraiva, que está em recuperação judicial. “Era uma loja estratégica, não queriam fechar, mas foi necessário nesse processo”. Reinvenção A necessidade de se redescobrir em face das redes on-line, impõe desafios gigantes às livrarias físicas. Curiosamente, o seu grande trunfo é justamente esse: a proximidade com o leitor. “As editoras estão percebendo a importância das livrarias físicas, porque os sites não geram novos leitores”, analisa Júlio. “Quando você tem o atendimento, o contato com o livro, a conversa, você amplia e diversifica as possibilidades”. Nesse sentido, uma opção para as livrarias é tornarem-se especializadas, ou ‘livrarias de nicho’. “Isso já acontece na Europa e Estados Unidos. Então, por exemplo, você tem lá aquela loja que é referência em Literatura Infantil; ela tem todo tipo de livro, mas é lembrada, e procurada, por essa especialidade”. Opinião Ao atendimento especial, o livreiro José Luiz Tahan, da Realejo Livros, acrescenta: opinião. “Hoje, a força está nas livrarias que consigam ter identidade, se relacionar com o leitor, passar um recado ao leitor (...) precisam ter livreiros, opinião”. Segundo crê, ainda que haja divergência, a curiosidade natural faz com que o leitor escute essa opinião. Essa dinâmica proporciona a fidelização. “Ele quer ter a experiência do espaço físico. pra não ter atendimento, ele compra na internet”. Tahan não crê que seja fruto do acaso o fato de que as duas grandes redes nacionais de livrarias, a Saraiva e a Cultura estarem passando por dificuldades financeiras. Segundo o livreiro, elas respondiam por 50% das lojas físicas no País. “Ambas foram ficando menos interessadas no leitor, porque não investiram em atendimento, especialização, identidade das livrarias. Uma pena, porque a Cultura era um exemplo de ótima livraria”. A conta não fecha Esse ‘inchaço’, em que livrarias se tornam redes, acaba fazendo com que a conta do negócio não feche. “A margem do livro é pequena. O modelo de negócio livraria não comporta a megastore, o faturamento não acompanha o crescimento da despesa”, avalia Solange Lopes Matins Fontes, proprietária da Livraria Martins Fontes, que há 62 anos se mantém em suas três lojas: duas em São Paulo e outra em Santos. Mais do que um desafio, Solange vê o comércio on-line como estímulo às livrarias físicas, “Buscamos outras formas de conquistar o público, com noite de autógrafos, contação de histórias... a livraria se torna um ponto de encontro”. Solange informa que há uma lei tramitando em comissões do Congresso, propondo que o preço dos lançamentos seja mantido inalterado por um ano, em qualquer meio de venda – como já ocorre em outros países. “Os lançamentos, uns 13 mil ao ano, são o que movimenta o mercado, mas respondem por 7% do catálogo das editoras. Uma lei nesse sentido permitira fôlego às livrarias para diversificar o tipo de títulos oferecidos”.