[[legacy_image_164693]] “Eu costumava correr muito quando ouvia que eles estavam por perto. Eu tinha muito medo de ser sequestrado, como os outros vizinhos”. Desde 1987, meninos e meninas, muitas vezes com menos de seis anos, são arrancados de suas famílias para serem soldados em guerras na África Central e Oriental. Lá, nesses países “esquecidos” pela comunidade internacional, sobrevivem, para não dizer que vivem, os Kadogos — expressão para denominar crianças-soldado num dos idiomas oficiais de Uganda. Em 2013, a especialista em Jornalismo Internacional, Carla Trabazo, descobriu o tema das crianças-soldado e decidiu escrever um conto baseado nos relatos compartilhados no site da Child Soldiers International. Foi quando surgiu a oportunidade de se jogar na África Central para aprofundar seus estudos, com o destino programado: República Democrática do Congo (RDC). O país estava com os conflitos armados sob controle. Porém, quando Carla já estava com passagem marcada, os conflitos recomeçaram a se intensificar. “Eu já tinha passagem, hospedagem, roteiro e fontes engatadas, mas há um mês da viagem, vi jornalistas da BBC sendo presos, colegas de área tendo vistos recusados, muita confusão na capital”. Não dava para ir. Era hora de usar as três semanas que restavam para a viagem e preparar tudo para visitar o vizinho da RDC, a Uganda. “Tá ficando louca?”, “Tem certeza que é uma boa ideia?”, foram as frases que Carla mais ouviu quando contou aos familiares e amigos sobre sua decisão. “As reações foram uma mistura de espanto e confusão. A confusão ficou a cargo de não saber direito aonde ficavam os países que pensei em ir e o idioma que se fala”. Ela foi e, da viagem, nasceu o livro Kadogos – A Vida de Crianças-soldado em Grupos Armados na África Central e Oriental. [[legacy_image_164694]] Winny, a “assassina”Em 2016, com 24 anos, Carla embarcou na viagem que a fez perder parte da esperança na humanidade. Meninos e meninas tiveram suas infâncias arrancadas e substituídas por armas, transformadas às pressas em máquinas mortíferas pelo Lord’s Resistance Army (LRA) — um dos grupos rebeldes mais antigos da África. Lá, conheceu Winny, ex-criança-soldado que foi sequestrada e obrigada a matar a própria irmã. Winny Agaba sonhava em ser professora, mas foi sequestrada com 10 anos de idade, em 1998, e treinada durante cinco meses pelo LRA para lutar contra o governo ugandês. “Torturar civis, saquear vilarejos e sequestrar outras crianças é o pacote básico que todo jovem soldado deve aprender”. (Trecho retirado do livro). “Conheci Winny por acaso. Enquanto esperava para entrevistar a diretora de uma ONG, ela fazia a segurança do lugar e, puxando papo pra passar o tempo, descobri que ela mesma foi uma criança-soldado e passou pela reabilitação justamente da organização que hoje protege”, explica Carla. Winny foi sequestrada durante uma invasão do LRA em sua vila. “Os soldados do LRA a obrigaram carregar sacos pesados e disseram que se ela não conseguisse carregar os sacos com a irmã mais nova em seu colo, teria que matá-la. O que aconteceu”. Winny já não aguentava mais ficar longe de sua família. Somente em 2006, com 18 anos, teve a oportunidade de fugir e voltou pra casa, mas a recepção não foi a que esperava. “Minha família disse que eu matei a minha irmã e que eu tinha demônios no corpo. Eles não me queriam por perto e os vizinhos queriam me ver morta. Minha mãe me disse: Winny, me esqueça”. (Relato retirado do livro). O medo de receber uma “assassina” em casa fala mais alto que a saudade da filha. “Esse é um recurso muito utilizado por grupos armados, que obrigam os jovens a matar familiares ou vizinhos para que assim se sintam constrangidos e com medo de voltar pra casa. Anos depois, fugida do grupo armado, Winny foi rejeitada pela mãe, que viu a cena, e teve que reconstruir sua vida em outro lugar”, afirma Carla. [[legacy_image_164695]] Todos são famíliaNa cultura ugandesa, habitantes de um mesmo vilarejo são considerados família. Todos são “tios”, “tias” e “primos”. Com isso, a ideia de receber de volta os filhos rende muitas discussões em todo o país. Nascer mulher já é sinônimo de passar por muitas dificuldades. Nos países da África Central e Oriental, a situação não é diferente. Muitas meninas são sequestradas para uma função: ser entregue como esposa a algum comandante e forçada ao sexo. As que são consideradas “feias”, são deixadas de lado, ganhando a mesma função que as outras crianças-soldado. “A Uganda é, como muitas, uma nação patriarcal e machista. Ver jovens mulheres retornando às famílias com filhos — frutos de estupros consecutivos e casamentos forçados com comandantes — era motivo pra rejeição, pois elas não seriam mais “puras” ou “dignas de casamento”, conta Carla. Além de sequestros, o LRA costumava receber crianças vendidas pelos pais. “Pagam um salário à família da criança-soldado. Uma oportunidade de sair da miséria ou garantir mais um sustento financeiro”. (Trecho do livro). Ponto final em UgandaDurante 21 anos (de 1987 a 2008), a população de Uganda experienciou um medo recorrente devido às noites interrompidas por tiros, correria, gritos e tragédias. A autora e jornalista conta que não há registros atualmente do uso de crianças-soldado em Uganda, diferente dos países vizinhos. “O conflito contra o LRA em Uganda se encerrou oficialmente em 2008, quando foi expulso do território.Contabilizando cerca de 2 milhões de mortes, o Lord’s Resistance Army já contou com cerca de 90% do contigente composto por menores de 18 anos, segundo o reltório do escritório das Nações Unidas para a Coordenaçãp de Assuntos Humanitários (Unocha). Doloroso“Conduzi por dois meses as entrevistas tanto com ex-crianças-soldado quanto com pais de filhos sequestrados, organizações voltadas à reabilitação e reinserção de crianças-soldado, fontes do governo. Fiquei concentrada em cidades e aldeias da região Norte, local mais devastado pelos grupos armados”, diz Carla. sobre o livro, dizendo que não foi fácil de escrever. “Foi um processo doloroso. E eu diria que o LRA não só arruinou o passado das crianças-soldado, mas como também seus futuros. Boa parte das pessoas com quem conversei vivem marginalizadas, sem apoio de uma sociedade que, culturalmente, vive como se todos fossem da mesma família”. O livro Kadogos: A Vida de Crianças-soldado em Grupos Armados na África Central e Oriental, lançado pela editora Lisbon, está à venda nas livrarias on-line e físicas.