[[legacy_image_254377]] Eu adoro assistir àquele programa Que História é Essa, Porchat? Acho que a premissa de que todo mundo tem algo para contar é fantástica e verdadeira. Nem sempre o relato é divertido. Tem alguns até de gosto duvidoso ou sem graça mesmo, mas a maioria é hilariante. Vai muito do dom de quem está narrando o causo. Uma das histórias mais engraçadas para mim foi a da Ingrid Guimarães. Clique, assine A Tribuna por apenas R\$ 1,90 e ganhe centenas de benefícios! Pesa o fato dela ser uma ótima comediante. Para quem não viu, vale procurar no YouTube. Dizem que o vídeo mais buscado do programa é do ator Kiko Mascarenhas, que narrou uma noite bizarra, cheia de consequências surreais por causa de um cachorro quente que não caiu bem. Talvez, o público goste das passagens constrangedoras, pois elas tornam todos mais reais. Como sou um tanto Pollyana, prefiro as de estilo conto de fadas, como das meninas que foram parar na casa errada e acabaram em uma festa vip do Luciano Huck, repleta de astros internacionais, champanhe e caviar. Acabaram cheias de selfies com estrelas como Ashton Kutcher e David Beckham. Fiquei pensando qual seria o causo que revelaria se, hipoteticamente, fosse uma das convidadas. Minha primeira impressão é de que eu não teria nada interessante para compartilhar. Mas, pensando mais um pouco, percebi que tinha um monte de histórias malucas, constrangedoras e divertidas e seria complicado escolher só uma. História 1: essa me faz sempre abrir um sorriso. Uma querida e saudosa tia do meu marido adorava aliviar a tensão do luto contando piadas. Ela era boa nisso. Mas essas ocasiões fúnebres invariavelmente levam o papo a doenças e acabamos conversando sobre meu pai e uma dor que ele sentia e nenhum médico descobria o que era. Ela, então, indicou (efusivamente) seu médico, que tinha “salvado a vida dela e era o melhor”. Disse que também tinha uma dor no abdômen e o tal especialista descobriu a causa e tudo ficou bem. Então, anotou o telefone dele em um papel e me deu. Agoniada com a dor misteriosa do meu pai, no dia seguinte já marquei a consulta. Minha irmã Roberta, que é a mais falante de nós, foi levá-lo. O consultório era antigo, com direito a uma máquina de escrever e cortinas pesadas cheirando a naftalina. Ao sentarem, meu pai se sentiu em um experimento. Disse que a sala estava cheia de senhoras que olhavam para eles como se tivessem cometido um crime. Porém, como era de se esperar, passados 5 minutos, minha irmã já conhecia metade das pacientes, trocava receita de bolo, mostrava foto do sobrinho e via a dos netinhos delas. Certa hora, a atendente chama Luiz Antonio, o nome do meu pai, que se levanta para a consulta. Novamente tornara-se o centro das atenções, sem entender o motivo de tantos olhares de questionamento. Quando entram no consultório, logo no centro da sala, os dois veem uma daquelas macas com duas perneiras, ou seja, uma maca ginecológica. Sabe naqueles desenhos animados, quando o personagem abre a boca formando um ‘O’? Pois foi isso que meu pai e minha irmã fizeram, entendendo de imediato o motivo de tantos olhares de estranhamento na antessala. Primeiro, devem ter julgado um homem mais velho com uma moça e, depois, pior ainda, a consulta ser para ele. Bom, não preciso dizer que o médico pouco pôde fazer pelo meu pai, a não ser protagonizar uma história engraçada. Minha irmã saiu do consultório me telefonando no mesmo minuto. Ela não conseguia contar o que houve, porque não parava de gargalhar. E eu ouvia meu pai ao lado se despedindo das senhoras, agora todo exibido para deixá-las ainda mais chocadas. Quando explicaram ao ginecologista a confusão, o fizeram rir também. Ele já foi logo dizendo que só podia ser coisa da Ilda (a tia do velório), que o considerava a cura para a humanidade. História 2: Na faculdade, eu estava em uma fase que topava qualquer possibilidade de aventura. Fazia estágio em uma rádio com mais uma turma grande de estudantes de jornalismo. O chefe de jornalismo propôs de irmos fazer uma matéria na Ilha da Moela. Com a experiência que tenho hoje, sei que eu deveria ter feito uma pesquisa sobre a ilha, sua distância, história e tudo mais. Porém, era um tempo pré-internet e isso teria de ser pesquisado nos arquivos de A Tribuna ou da Hemeroteca Municipal. Sendo sincera, nem pensei nisso. Só achei fascinante ir à Ponta da Praia, pegar um barquinho, que mais parecia a jangada da música dos indiozinhos em um dia chuvoso para me lançar em uma aventura no mar. Não fui sozinha. Éramos seis. Nosso chefe deu o cano. Mas decidimos ir mesmo assim. O barco estava pago e a gente, um bando de estudante duro, não iria desperdiçar. Bom, fomos balançando e nos molhando (muito) até lá. E a viagem demorou o que parecia uma eternidade. Minha mochila chegou encharcada, assim como a roupa dentro dela e eu. Consegui proteger a câmera fotográfica e só. No breu da noite, foi um alento ver a luz solitária do Farol da Moela, aquela que guia embarcações pesqueiras (e jovens malucos). O barco encostou e o faroleiro veio nos receber. Isso era o que parecia. Mas, na verdade, ele foi ver quem eram os doidos que estavam chegando à ilha, àquela hora da noite e sem aviso. Sim, nosso chefe não tinha agendado nada com a Marinha do Brasil, responsável pelo lugar. Vendo nossa cara desesperada, nos deixaram ficar. E os desafios não tinham fim. A gente teve que fazer um rapel com cordas para subir o caminho de pedras e, finalmente, chegar em terra firme. Já no topo, ainda fomos alertados para tomarmos cuidado com cobras (!). Sem preparo para hóspedes, não havia colchão. Os anfitriões ainda conseguiram travesseiros para aquela molecada. Nos amontoamos em qualquer canto e com o desprendimento mágico da juventude, dormimos fácil. No dia seguinte, logo cedo, o mar agitado, a chuva, o rapel, as cobras e a confusão valeram cada segundo. Que lugar lindo. Um ponto no oceano do qual de um lado se avista Guarujá e de outro a imensidão em degradê de azul que junta mar e céu num horizonte sem fim. Nos divertimos tanto e fomos bem recebidos. A impressão é que a vida ali era solitária e que companhia, mesmo inesperada, era bem vinda. Quando voltamos, o cara de pau do chefe disse que não era para termos ido, já que ele não apareceu. Azar o dele que perdeu uma boa história para contar.