[[legacy_image_214035]] Candidato ao Governo do Estado pelo PT, Fernando Haddad tem um grande desafio: reverter a vantagem de Tarcísio Gomes de Freitas (Republicanos), que fechou o primeiro turno na liderança. Mas, segundo ele, há algo maior para lidar: a desinformação, no que considera uma “guerra subterrânea” que prejudica o debate de ideias. Ele esteve em Santos, nesta terça (11), para compromissos de campanha. Haddad visitou o Grupo Tribuna, onde participou do JT1 e concedeu entrevista para A Tribuna. Há quem diga que o segundo turno é uma outra eleição e começa tudo do zero. O senhor concorda? Como reverter a desvantagem do primeiro turno?Não sou da tese de que é outra eleição. Você leva o seu capital político para o segundo turno. Isso tem uma força; se você não errar, aquilo vira um piso para a votação que você vai ter. Mas o que acho que está em jogo, hoje, no Brasil e em São Paulo, não é tanto as propostas, mas uma guerra subterrânea dividindo os brasileiros, e que não deveria acontecer. Tem essa indústria maldita de fake news (desinformação) e isso ocupa muito mais nosso tempo do que aperfeiçoar nosso plano de governo. Por falar em rearranjos e novos apoios, como observa a chegada do PDT e do Solidariedade? O que fizemos no primeiro turno foi extraordinário, que foi trazer uma parte grande do PSDB para o PSB, liderados pelo (Geraldo) Alckmin (candidato a vice na chapa presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva, do PT). Ele é uma pessoa de muita experiência em política e percebeu que o Brasil estava entrando numa polarização indesejável. A pior coisa é a pessoa votar por medo de uma assombração criada por uma narrativa falsa. Essa “nacionalização” da eleição estadual não pode prejudicar o debate em torno dos problemas específicos do Estado?Isso já aconteceu em outras eleições, com pessoas de estatura pública considerável. Já tivemos aqui Fernando Henrique, Mario Covas, o próprio Alckmin. Em quase todas as ocasiões, tinha um candidato do PT. Isso não é um problema, porque São Paulo tem o tamanho de um país. Como o senhor observa o potencial da Baixada Santista, em termos de desenvolvimento econômico?A Baixada vive um momento muito interessante com a descoberta do pré-sal. Ele ainda não foi compreendido pelo povo de São Paulo em toda a sua escala. Mudou a cara de São Paulo. Temos que repensar a industrialização com base nisso. Vamos utilizar mais o petróleo para indústria petroquímica ou vamos usar mais o combustível fóssil? Temos que pensar isso. Dependendo de como a gente atua, faz um tipo de coisa. Também entra aí uma discussão sobre inovação tecnológica?São Paulo, por exemplo, é um Estado que está na dianteira da discussão sobre carro híbrido. Podemos ter um carro híbrido, elétrico, (movido) a combustível, que não precisa ser fóssil. E (há) uma pesquisa em curso que pretende extrair o hidrogênio do etanol para produzir energia elétrica. Veja que podemos estar na dianteira do mundo. Colocar nossas instituições de pesquisa para se debruçarem sobre esse tema. As placas fotovoltaicas, que estão espalhadas pelo Estado, produzindo energia limpa: será que não é o caso de ter uma indústria no Brasil? Como o senhor vê a questão da desestatização do Porto de Santos?Fico preocupado com a situação do Porto de Santos, que ele vire um mero despachante de commodities. É o risco que está ocorrendo com o modelo de privatização que está em curso, no qual se privatiza a Autoridade Portuária. Tem uma série de problemas que precisam ser discutidos e são técnicos, nada simples de se explicar. O vice-presidente da InvestSP, Gustavo Ley, afirma que é melhor “vender” a Baixada Santista a possíveis investidores como um projeto único de atratividade. Como o senhor analisa essa prospecção?O Governo do Estado acredita que as coisas sejam feitas por geração espontânea. Isso não existe em política industrial. Não existe em tecnologia. Na Califórnia (Estados Unidos), há um sistema de inovação local, que é minha proposta para São Paulo. Tem o Poder Público, as instituições de pesquisa e o setor privado permanentemente reunidos. Isso é uma discussão permanente, e não tem condições de começar sem o governador sentado à mesa. Quanto à segurança pública: qual a política que o senhor imagina a mais adequada, especialmente para a Baixada Santista?A maior debilidade que nós temos é na investigação. Porque você faz uma prisão em flagrante do pequeno traficante, do ladrão de celular, de moto... faz a prisão em flagrante e não tem a etapa seguinte, a que vai fazer você chegar ao andar de cima da criminalidade. É onde está o problema. Se você não desbaratar o organização que ali está, que alicia o infrator e recepta o bem roubado, você vai ficar enxugando gelo. Esse é o trabalho de inteligência da Polícia Civil, que não existe em São Paulo. Além, é claro, organizar o policiamento ostensivo. E com relação ao funcionalismo público? Como é a política que o senhor pretende implementar relativa aos servidores públicos do Estado?Está faltando tudo que é essencial. Está faltando concurso, as carreiras não são pactuadas com as categorias, que estão desmotivadas. Também não existe um plano de metas. Então, na verdade, é uma situação de inércia, mais do que de degradação. De não tomar providências para melhorar os serviços prestados. Sobre Educação, quais as questões que devem ser atacadas?Vejo o momento com preocupação. Primeiro: priorizar, emergencialmente, crianças de até 10 anos que não estão alfabetizadas — a pandemia é parte da explicação, mas não é a única. Temos que acionar um plano de alfabetização junto aos prefeitos. Fazer um grande programa logo no início do ano, para resolver esse problema e não permitir que uma criança fique para trás. Outra questão é a evasão escolar do jovem no Ensino Médio e na universidade. Trazê-lo mediante programas de bolsa, de aprendizagem, de estágio, para as salas de aula. Agora, estruturalmente, tem que ter uma reforma no Ensino Médio de caráter pedagógico. Eu quero trazer para a rede estadual a experiência que eu criei (enquanto ministro da Educação), dos institutos federais. É o meu modelo de Ensino Médio. E o Ensino Superior? Todas as cidades paulistas têm que ter oferta de curso superior. Todas, sem exceção. Usar a Univesp. As Etecs podem dar cursos superiores presenciais. A Univesp pode dar cursos superiores a distância. E nenhuma cidade precisa ficar desprovida de curso superior. Um curso? Dois? Não tem problema. Outro elemento importante da economia da Baixada é o Turismo. De que forma é possível aproveitar esse potencial da região?Penso que falta muita publicidade do turismo de São Paulo para os paulistas. O paulista não conhece todas as oportunidades turísticas que o Estado oferece. A Região Metropolitana de São Paulo, vale lembrar, tem 22 milhões de potenciais turistas. A mobilidade é uma preocupação que abrange todos os municípios da região. Quais as soluções que o senhor vislumbra para a Baixada?Temos que voltar a pensar em trilhos. Porque, se não for assim, não vamos resolver o problema de mobilidade do Estado. A cada oferta de via asfaltada, dobra a demanda por essas mesmas vias, pelo transporte individual. O mundo descobriu que o asfalto gera sua própria demanda. É uma roda que gira em falso. O trilho, não.