(Adobe Stock) Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá; as aves, que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá. O trecho de Canção do Exílio, de Gonçalves Dias, todos conhecem. O curioso é que uma pesquisa recém-concluída parece dar razão ao poeta. Em outras palavras, os cantos evoluem em resposta a mudanças no habitat, clima ou até interações sociais, reforçando que o “gorjeio” é uma característica tanto biológica quanto cultural, moldada pelo lugar. Essa hipótese, mesmo não sendo nova, surge agora alicerçada em um dos mais amplos estudos já realizados, que analisou mais de 100 mil gravações, englobando quase 80% das espécies já catalogadas. O trabalho, realizado por pesquisadores norte-americanos, oferece ainda novas e instigantes conjecturas. Uma delas, por exemplo, diz que espécies menores utilizam uma faixa mais ampla de frequências sonoras como mecanismo de proteção – esses pássaros simulam sons de animais maiores para dissuadir eventuais predadores. Já outro dado sugere a existência de semelhanças nos cantos de aves que habitam as mesmas latitudes. (Adobe Stock) Relação Mesmo não sendo totalmente inédita, tal ideia reforça a existência de uma relação entre as latitudes, a biogeografia e a evolução vocal. E isso nos traz a imagem do canário na mina. Não entendeu? Eu explico. Os mineiros costumavam levar canários (ou outros pássaros) quando desciam em minas. Em uma época onde não havia sensores ou outra forma de medir a qualidade do ar, as aves davam o alerta. Agora, com base nesse imenso banco de dados, torna-se possível avaliar os impactos das atividades humanas e das mudanças climáticas por meio da vocalização das aves. E porque isso é importante? Basta dizer que os pássaros são predadores contumazes de insetos. O silenciamento das aves está diretamente relacionado com o aumento de pragas e, as pragas, com a intensificação na aplicação de agrotóxicos. Hoje já se sabe que a diversidade de aves em um ambiente, mesmo urbano, tem relação direta com a qualidade ambiental. Assim, mapear e catalogar chilreios, gorjeios, grasnados e piados nos dirão, com mais exatidão, se teremos um futuro menos ou mais saudável, perpetuando a lembrança dos poetas. (Adobe Stock) Cresce o número de observadores de aves na Baixada Santista No começo, lá em 2022, eram cerca de dez pessoas. Hoje, o Clube de Observadores de Aves (COA) de Santos já conta com cerca de 100 participantes, que participam de reuniões mensais e saídas a campo. Uma das fundadoras, a educadora ambiental Cibele Coelho, conta que a ideia do grupo nasceu de uma visita a um evento em Ilhabela e do trabalho desenvolvido pela bióloga Sandra Pivelli. Falecida no final de 2023, Pivelli catalogou quase 300 espécies de aves na região, enquanto funcionária pública da Secretaria de Meio Ambiente. Jardim da Praia O trabalho contou com imagens do fotógrafo Leonardo Casadei, que foram transformadas em placas que estão espalhadas ao longo do jardim da orla de Santos. Casadei, aliás, é autor do guia de campo sobre as aves da Costa da Mata Atlântica. Lançado em 2020, é o primeiro do gênero dedicado à Baixada Santista. O guia, ricamente ilustrado, apresenta fotos e informações de 270 espécies em 322 páginas. Encontros Hoje, o COA Santos se reúne mensalmente e os interessados podem participar acessando o Instagram (@coa.santos). A participação é gratuita e não há pré-requisitos. “Sempre me perguntam o que precisa para fazer parte das ações. Eu respondo que precisa só de vontade, de gostar da atividade de observar aves”. Requisitos como binóculos, câmeras fotográficas e até aplicativos que identificam o canto das aves são opcionais e o seu uso fica a critério de cada participante. Além do bem-estar que atividade gera, a observação de aves é um dos segmentos que mais atraem turistas no mundo e a região, cercada de Mata Atlântica, oferece muitas opções, inclusive no espaço urbano, por meio de áreas como o Orquidário (José Menino), o Jardim Botânico Chico Mendes (Bom Retiro) e os recém-criados parques do Morro (Nova Cintra) e dos Mangues (Santa Maria). Bilíngue Atualmente, além de Santos, outros COA começam a surgir nas demais cidades da Baixada Santista. Cibele destaca que essa atividade tem importância para a Ciência. “Chamamos isso de Ciência-Cidadã. Os pesquisadores não têm como estar em todos os lugares e como catalogamos tudo o que observamos, acabamos ajudando os cientistas”. Além do COA Santos, quem quiser observar aves pode acessar a página on-line do Circuito das Aves (disponível no link bit.ly/3E4JwDG), que contém um roteiro bilíngue de áreas de observação em Santos, espécies catalogadas, dicas para observação e até um código de ética para a atividade. Mais do que um hobby A prática vai além do lazer, promovendo saúde mental, bem-estar e, ainda, contribuindo para o turismo sustentável. Espaços urbanos A região da Baixada Santista, com sua rica biodiversidade, oferece um cenário ideal para a observação de aves. Além disso, a iniciativa destaca a importância de áreas verdes em ambientes urbanos, como Jardim Botânico e Orquidário. (Reprodução)