Diretas já? Ainda não. Mas em janeiro de 1985, a ânsia por liberdade teve uma resposta cultural que ecoa até hoje: o primeiro Rock in Rio, que completa 40 anos agora. Na época da redemocratização do Brasil, o festival que abriu as portas da música mundial ao País se transformou no grito de afirmação de uma geração. Realizado entre 11 e 20 de janeiro na antiga Cidade do Rock, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, o festival reuniu 1,4 milhão de pessoas em seus dez dias. O público assistiu a 31 bandas e artistas. Das atrações internacionais, famosas no planeta, somente o Queen havia se apresentado antes no País – à época, o Brasil nem remotamente figurava no mapa das grandes turnês mundiais. Entre os artistas brasileiros escalados, havia a mistura de nomes consagrados, como Erasmo Carlos, Gilberto Gil, Ivan Lins e Rita Lee, e os da nova geração, do chamado BRock 80. Um deles eram Os Paralamas do Sucesso. “A gente tinha uma ideia da grandeza do festival e da importância como uma vitrine que projetasse o nosso trabalho para o resto do País, mas a gente não tinha noção da repercussão disso além das fronteiras do Brasil”, recorda João Barone, baterista dos Paralamas. Esse reflexo foi notado no início de 1986 em shows lotados na Argentina: todos os conheciam do Rock in Rio. Antes, porém, a consagração pós-festival se deu mesmo no Brasil, com shows lotados de norte a sul. “A gente chegava a fazer duas sessões de shows por noite”, recorda Barone. “Foi tão marcante, que até hoje todo mundo lembra da nossa ‘revelação’ no Rock in Rio”. Expectativa, dúvida, sintoma Imenso, inédito. Desde seu anúncio, o Rock in Rio causou fortes emoções. Barone conta que havia dúvida de que o festival fosse realmente realizado. A seis meses da data inaugural, contudo, a dúvida deu lugar à curiosidade: quem estaria escalado? “Foram divulgando aos poucos, rolou uma expectativa gigante sobre o festival, que estava colocando o Brasil no mapa mundial do showbiz”. Tudo isso não se restringiu à música. O zeitgeist, ou ‘espírito da época’, era o fim da ditadura, com os movimentos pelas eleições diretas levando milhões de pessoas às ruas das grandes cidades. Mas não foi daquela vez: as diretas acabaram rejeitadas, Tancredo Neves foi eleito pelo Colégio Eleitoral, em 15 de janeiro de 1985 – um dia antes do segundo show dos Paralamas. O ‘espírito da época’ acabou se manifestando na apresentação. Os Paralamas incluíram a música Inútil, do Ultraje a Rigor, no repertório. Aquela cuja letra diz, ironicamente, que “a gente não sabemos escolher presidente”. “O Herbert (Vianna, cantor e guitarrista dos Paralamas) sempre foi um cara muito ligado. No momento em que ele estava com o microfone aberto para 200 mil pessoas, e com tudo o que estava ocorrendo no entorno, era inevitável a gente mandar algum recado, além daquele que a gente dava com a nossa música”. Outro recado foi endereçado ao público. “Em vez de vir aqui jogar pedra, fica em casa tocando guitarra, quem sabe no próximo, estará aqui no palco”, disse Herbert Vianna. Ele se referia às agressões sofridas pelo Kid Abelha e Eduardo Dusek, vaiados e alvejados por pedras e pedaços de barro, pelos metaleiros. Ney Matogrosso e Erasmo Carlos também já tinham sido sonoramente vaiados em seus shows. Interação Entre os participantes estrangeiros do Rock in Rio, não havia nenhuma grande referência musical dos Paralamas. Ao menos, não diretamente. “A gente teve a oportunidade de ir no ensaio dos B-52s. Quem tocava baixo e bateria com eles era a dupla dos Talking Heads, Tina Weymouth (baixista) e Cris France (baterista), que são marido e mulher”, recorda Barone. “A gente teve a chance de bater uma bola com Cris e Tina. Foi uma experiência muito boa”. Os B-52s, contudo, os Paralamas apreciavam. Assim como o grupo feminino Gogo’s, cuja baterista, Gina Schock, foi ciceroneada no Rio por Barone. “Levei-a para tomar umas caipirinhas”, relembra. Esse foi o máximo de convívio próximo que o grupo teve com estrangeiros durante os 10 dias de festival. Exceto por uma interação nada usual. “Nina Hagen (cantora alemã) entrou em nosso camarim e tentou dar uns beijos na gente”, sorri. Com todas as memórias guardadas especialmente no coração, João Barone tem uma certeza – que vem sendo confirmada por todo o País ao longo desses 40 anos. “A gente saiu consagrado do festival. Na hora, a gente sentiu ‘é gol, é gol de placa!’. Para nossa satisfação, o público e a imprensa reconheceram que a gente foi a revelação do Rock in Rio”. Festival de ‘nãos’ Um evento musical dessa magnitude, inédito no Brasil, levantou suspeitas mundo afora. Tanto que Roberto Medina, o idealizador do Rock in Rio, recebeu 70 ‘nãos’ de estrelas mundiais, entre elas Bob Dylan, Brian Adams, The Rolling Stones, Led Zeppelin e Pink Floyd, até chegar aos 16 nomes internacionais. O primeiro artista de fora a assinar foi Ozzy Osbourne. Dos nacionais, Rita Lee – dos 15 brasileiros. Vibração As gerações mais novas não sabem o que é ou, ao menos, nunca usaram um “orelhão de ficha” – frise-se. Pois foi por esses aparelhos imprescindíveis nos anos 80, que a locutora e radialista Monika Venerabile, 61 anos, fez entradas ao vivo na Fluminense FM – A Maldita, direto do Rock in Rio. Nos dias de festival, lá ia ela, com seus vinte e poucos anos, 50 quilômetros de Niterói à Cidade do Rock, em um fusquinha. “Todas as mídias estavam lá. Mas desde a escalação das bandas, a gente fez parte daquilo como rádio não oficial”, sorri. Monika recorda com carinho o show do Barão Vermelho, ainda com Cazuza nos vocais. Até um momento de perigo ela relembra com um sorriso no rosto. “No show do AC/DC, a área de fotógrafos na frente do palco foi evacuada. Eu, que era pequenininha, fiquei escondida embaixo do palco. que foi evacuado porque iam estourar canhões”, gargalha. “De repente, pow! Eu quase voei longe com a pressão. Foi uma das coisas mais divertidas”. Mas ela nunca imaginou que a diversão chegasse aos 40 anos e muito bem. “Nunca, jamais imaginei (que o Rock in Rio se perpetuasse), com aquele lamaçal, uma lanchonete a 500 metros, você nadava até lá para comer um pão seco. Mas o Roberto Medina (criador do Rock in Rio) é um cara genial: acreditou no sonho e continua acreditando”. (Reprodução) Eu fui! Disruptivo. É a palavra que Pablo Garcia, o Pablo Pablo, locutor da Tri FM, tem para descrever o que foi o primeiro Rock in Rio. “O Brasil não recebia grandes shows internacionais. Era pouca coisa”. Aos 64 anos, Pablo já trabalhava em rádio à época, portanto estava acostumado à rotina de shows. “Foi a primeira vez que eu vi algo tão grande. Era diferente, mas era um lugar que não tinha uma megaestrutura, como hoje. Tinha um grande palco, muita chuva e muito barro. Peguei a lama, mas não ficava bravo com isso, não”. Nem dava: seus olhos ficaram grudados, por exemplo, no show da banda Yes, o melhor a seu ver. “Foi maravilhoso. Quando a banda entrou, o som era outro. Não sei se era o engenheiro; e a iluminação era muito diferente”, recorda. Pablo foi ao festival com um grupo de amigos. Tinha 24 anos. Era tão grande a Cidade do Rock que se perderam várias vezes. Mas se reencontravam, mesmo sendo outros os tempos. “Não tinha celular. Aliás, a gente não tinha muita informação de nada; música era disco de vinil. Sobre músicos e bandas de fora, a informação era pelo jornal e por revistas especializadas, muitas importadas”. Mas foi bom? “Muito. Não falo só da música, mas da atitude das pessoas, de um momento totalmente diferente que se vivia no Brasil. Ninguém estava bravo com a chuva, nem com a lama. Podia até nevar que estaria bom”.