Eduardo Silva (à esquerda), Walter Dias (ao centro) e Sergio Willians (à direita) estão entre os presentes no documentário (Arquivo pessoal) O rádio santista é centenário. Mas a celebração é na telona: nesta terça-feira (12), às 21 horas, o Cine Roxy exibe o documentário 100 Anos do Rádio Santista, produzido, escrito e dirigido por Fabrício de Lima. A entrada é franca. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! “Realizar este documentário foi, antes de tudo, um gesto de reconhecimento a profissionais que ajudaram a informar, emocionar e acompanhar gerações inteiras por meio do rádio. O rádio santista faz parte da memória afetiva da nossa região e também da construção da identidade cultural da Baixada Santista”, afirma o diretor. Originalmente pensado para ser um curta-metragem de 20 minutos, o filme final acabou com uma hora e oito minutos – das mais de 12 horas de depoimentos. Relembram histórias Áurea Faria, Cláudio Mussi, Eduardo Silva, Evandro Rampazo, Inês Bari, Irineu Alves, Jorge Fernandes, Luiz Torquato, Marco A. Vieira, Rick Santos, Sergio Willians, Thiago Mansur, Val Tomazini e Walter Dias. Aliás, sobre este último, o documentário resgata a narração do milésimo gol de Pelé, em 19 de novembro de 1969, que Walter Dias realizou pela Rádio Cacique. “A gente pegou a fita dele, passou do analógico para o digital, e usou no filme”, conta Fabrício. Mas a façanha não foi assim tão simples. Como o próprio Walter conta no filme, teve que mover céus e terra para chegar ao Maracanã. “Eu era o chefe da equipe. Fui à direção da rádio e expliquei. A direção falou: ‘Se vocês venderem publicidade para cobrir a despesa, podem ir’”. Era uma segunda-feira, o jogo seria quarta. Aguerrido, vendeu no mesmo dia. “Cheguei para a direção: ‘não vai dar muito lucro, mas dá audiência’”. Claro, ir de avião seria impensável. Os olhares se voltaram para o Fusquinha 1300 do operador Leonardo. Saíram às sete da manhã, chegaram no Maracanã às cinco da tarde. Fizeram o jogo, Pelé se consagrou – e a Cacique também: foi a única rádio santista a narrar in loco um capítulo da história do futebol mundial. “Chegamos aqui às 8 horas. Mas felizes por ter narrado o milésimo gol do Pelé”. Inês Bari (à esquerda) e Luiz Torquato (à direita) (Arquivo pessoal) Pioneirismo Já é do calendário oficial de Santos: todo 4 de abril é o Dia do Rádio Santista. A data é a da primeira transmissão na Cidade, feita pela extinta Rádio Clube de Santos, em 1925. “Estava nesse evento (anual, na Câmara de Santos para homenagear o rádio), acho que em 2022, e falei: ‘poxa, quanto tempo falta para completar 100 anos? Faltam três. Isso dá um filme’”, recorda Fabrício, que é formado em cinema, rádio e TV. A partir daí, a ideia cresceu, também pela importância do rádio santista em um contexto nacional. “Grandes comunicadores nasceram aqui, ou daqui saíram”. Não só comunicadores, mas atores, atrizes, cantores, cantoras. Dentre eles, Deny, Lenny Eversong, Renata Fronzi, Cacilda Becker, que começou a carreira nas radionovelas da PRB-4, a Rádio Clube. Aliás, as radionovelas eram um dos carros-chefe dos primeiros tempos, o do entretenimento, com programas de auditório ao vivo, como elenca Fabrício. Com a ascensão mundial do Santos Futebol Clube, nos anos 60, ganhou reforço o esporte. E a partir dos anos 80, com a entrada da frequência modulada, a FM (até então, reinava a AM, amplitude modulada), a audiência era mais disputada no terreno da música. Hoje, os desafios ao rádio estão na internet. “Mas o que fica é que o rádio é um grande companheiro. O locutor dialoga com o ouvinte, que se sente acolhido. O rádio tem esse poder, da comunicação entre as pessoas. Quando entra a IA, por exemplo, isso se perde”. Depoimentos “No estúdio ficava o locutor principal, no plantão esportivo, que dava os resultados dos outros jogos – a rádio transmitia os jogos do Santos, o plantão informava Corinthians, Palmeiras e São Paulo –, e eu auxiliava o plantão como rádio escuta: ele ouvia a Jovem Pan e eu ouvia a Rádio Bandeirantes, e a gente ia atualizando os resultados para ele falar no ar. Eu sonhava com o dia que o plantão ia faltar para eu falar. O dia que ele faltou, eu fiquei doente e não fui. Coisas que acontecem”, diz o jornalista Eduardo Silva. “Eu era o chefe da equipe. Fui à direção da rádio e expliquei. A direção falou: ‘Se vocês venderem publicidade para cobrir a despesa, podem ir’ (...) Chegamos aqui às 8 horas da manhã. Mas felizes por ter narrado o milésimo gol do Pelé”, diz comunicador, Walter Dias (ao centro), sobre narrar, no Maracanã, o milésimo gol de Pelé, em 1969. "A Rádio Clube dá uma grande virada a partir de 1927. Foi quando assumiu a presidência Hermenegildo da Rocha Brito. Ele viu uma outra faceta da rádio, que não era só uma questão de vendas de aparelhos. Eles perceberam que poderiam vender programação. Aí, ele inicia, de forma pioneira no Brasil, um conceito de publicidade em rádio (...) ou seja, programas com patrocinadores. Seriam os ‘naming rights’ que a gente fala hoje” diz o jornalista e pesquisador da História de Santos, Sergio Willians. “Eu acho que o rádio vai permanecer sempre. Quando entrou a internet, eu percebi que o rádio tem tanta agilidade… ele é o que mais faz essa conexão de uma forma rápida. A tevê precisa de um processo. O rádio vai se adaptando. O rádio é incrível, fantástico, porque permite uma coisa incrível: ele dá a voz, o resto é a imaginação”, diz a radialista Inês Bari. “O rádio é uma herança – tem pessoas que ouvem o rádio, a avó ouvia, aí o filho e a filha pegaram esse hábito, passaram para os netos, para os seus filhos. Então, essa é a nossa grande tarefa: comunicar informação útil, música, muita alegria, sempre não deixar as pessoas se desanimarem”, diz o radialista Luiz Torquato.