Além de uma linha do tempo, a mostra tem um panorama do funk no Brasil, como expressão cultural (WELLINGTON ALMEIDA/DIVULGAÇÃO) Música, estilo e linguagem: uma cultura. Esse é o funk, que ultrapassa palco e holofotes. No Brasil, começou a ganhar forma no Rio de Janeiro. Mas em São Paulo, a porta de entrada foi a Baixada Santista, nos anos 90. Essa história está sendo contada na mostra Funk - Um Grito de Ousadia e Liberdade, em cartaz no Museu da Língua Portuguesa, na Capital, até agosto de 2026. “Não tem como falar do funk em São Paulo, sem mencionar a Baixada Santista. O funk da Baixada se assemelha ao do Rio de Janeiro”, explica Renata Prado que, ao lado de Taísa Machado, Marcelo Campos, Dom Filó e Amanda Bonan, é curadora da mostra. Concebida originalmente pelo Museu de Arte do Rio (MAR), onde ficou um ano e meio em cartaz, a exposição pretende debater o papel do funk nos repertórios linguísticos, artísticos e afetivos. Já a ponte Rio-Baixada do funk teve um protagonista: o CD. “Essa mídia foi fundamental para disseminar o funk, em especial um álbum, o Funk Brasil volume 1 (de 1989)”, afirma Renata. Esse intercâmbio criou os pioneiros de Santos, em nomes como DJ Baphafinha, Jorginho e Daniel, Tim e Dedesso, entre muitos outros. “Essa relação de receber o disco fez os caiçaras se espelharem no Rio”, enfatiza Renata. “Os códigos sociais são muito parecidos”. Obra de Herbert Amorim que está exposta na mostra sobre o funk (Divulgação) Consciência Não somente os códigos são similares: também o som, calcado no atabaque, nos tambores. “A musicalidade deve muito ao samba, à soul music ao Miami Bass (ritmos eletrônicos)”, explica Renata. Nos temas, porém, é que a Baixada Santista difere do padrinho carioca, com uma identidade questionadora. “É o funk consciente, politizado”. Uma parte importante da mostra em cartaz é a questão linguística em torno do funk – outra proximidade entre o Rio e a Baixada. “Na exposição, temos vídeos em que se destaca a similaridade do sotaque, com elementos típicos do litoral. Por exemplo, há estudos que apontam os litorâneos com a característica de carregar no ‘x’”. Na capital Nos anos 90, enquanto o intercâmbio entre Rio e Baixada Santista nascia, a cena da periferia paulistana enveredou pela cultura do hip-hop, com seu pilar musical, o rap. Só uma década depois, a Capital a abraçar o funk, na vertente chamada de ostentação. “Surge no bom momento econômico do País, com a periferia tendo maior poder compra. A música refletiu esse anseio”. Hoje, há várias ramificações. Uma das mais recentes é o chamado funk bruxaria, ou mandelão, caracterizado por sonoridade agressiva, aguda, em batidas eletrônicas. Renata nasceu e foi criada no bairro Itaim Paulista. Pedagoga, pesquisadora da cultura funk e das relações étnico-raciais da USP, para ela, o funk vai além da música e até da cultura: é um caminho de afirmação, é rebeldia expressa pela arte. Renata também é fundadora da Frente Nacional de Mulheres do Funk e liderança da Frente Estadual Parlamentar do Funk. “É minha força motriz, é o movimento que conduz meus caminhos enquanto acadêmica e ativista política. Funk é transformação, é cura, é continuidade de uma história negra”. Onde tudo começou: os bailes charme dos anos 70, no Rio de Janeiro (ALMIR VEIGA/DIVULGAÇÃO) A mostra A exposição irá apresentar e articular a história do funk além da música, com suas origens urbanas, periféricas, as comunidades e os desdobramentos estéticos. Dos bailes charme no Rio, nos anos 70 e 80, ao passinho do Romano, na Zona Leste da Capital, passando pela Baixada Santista, são 473 obras, entre colagens, telas, fotografias, vídeos e figurinos contando essa história. O acervo da memória da Funk TV é a novidade da mostra no Museu da Língua Portuguesa. A produtora é do bairro Cidade Tiradentes, berço do movimento na Capital, trará um olhar único sobre o funk paulistano. Serviço: Funk - Um Grito de Ousadia e Liberdade. Museu da Língua Portuguesa (Praça da Luz, s/nº, Centro, São Paulo). De terça a domingo, das 9h às 16h30. Ingressos a R\$ 24,00, à venda pela internet. Gratuito aos sábados e domingos. Até 30 de agosto de 2026.