O ator Emílio de Mello, que tem 70 quilos, fez uma preparação especial para encarnar o personagem Charlie, que chega aos 270 quilos (Ale Catan / Divulgação) Emílio de Mello teve poucos dias para conhecer seu personagem na peça A Baleia, em cartaz no Teatro Sabesp Frei Caneca, em São Paulo. Charlie é um professor universitário, dono de uma rara cultura literária, mas que vive isolado em casa por causa de seus 270 quilos. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! “O peso excessivo é uma forma de autopunição provocada pela grande tragédia que foi a perda do grande amor e pelo distanciamento da filha”, conta Mello. Com 70 quilos, o ator passou por um trabalho de caracterização específico, que incluiu figurino com enchimento e recursos de climatização, para atingir o perfil do personagem. Recluso em seu apartamento, de onde ministra cursos on-line de redação em inglês para estudantes universitários, Charlie tenta se reconectar com Ellie (Gabriela Freire), sua filha de 17 anos. Os dois se separaram depois que ele abandonou a mulher, Mary (Alice Borges), para ficar com um de seus alunos, que mais tarde morreu. Após a tragédia, Charlie passou a comer compulsivamente, movido pela dor e pela culpa. Sua enfermeira e única amiga, Liz (Luisa Thiré), o agrada com comida pouco saudável, ao mesmo tempo em que o incentiva a procurar um hospital para tratar a insuficiência cardíaca. Certo dia, quando começa a ter um ataque do coração, Charlie é socorrido por Thomas (Eduardo Speroni), um missionário da Igreja Nova Vida que, por acaso, o visita no momento certo. “Charlie tem muita empatia, pois pensa no outro. O fato de esse amor ter praticamente destruído sua vida o deixou vazio. E a forma de compensação foi comer muito, o que não adiantou, porque ele continua vazio”, diz Mello, que assumiu o papel no lugar de José de Abreu, idealizador do espetáculo, que estreou no Rio de Janeiro em setembro do ano passado. Por conta de outros compromissos profissionais, Abreu deixou o personagem para Mello na temporada paulistana. “A peça fala de intolerância religiosa, homofobia, culpa, reconexão e empatia, sempre a partir de personagens humanos, complexos e cheios de contradições”, afirma o diretor Luís Artur Nunes, que também traduziu o texto original, escrito em 2012 pelo americano Samuel D. Hunter, baseado em sua própria vida e trajetória. Nascido na pequena cidade de Moscow, nos Estados Unidos, Hunter foi pressionado a se assumir gay ainda na adolescência. A homofobia do ambiente provinciano lhe causou mazelas emocionais que se refletiram em um rápido ganho de peso durante os anos de universidade. “A principal preocupação de A Baleia é a tragédia do isolamento e o valor redentor da conexão humana. De muitas maneiras, A Baleia tem sido o varal onde pendurei toda a minha obra”, afirmou Hunter à imprensa americana. Professor de redação, ele também relembrou que o ponto de partida para a escrita da peça foi uma frase comovente encontrada em um texto de aluno, reproduzida no espetáculo: “Preciso aceitar que minha vida não vai ser muito emocionante”. Serviço A Baleia. eatro Sabesp Frei Caneca, no Shopping Frei Caneca (Rua Frei Caneca, 569, 7º andar) Sextas e sábados, às 20h; domingos, às 19h. Ingressos de R\$ 50 a R\$ 160. Em cartaz até 1º de março.