Dante Negro. Cisne Negro. Poeta Negro. Três alcunhas, a mesma luta: a da causa abolicionista, que João da Cruz e Sousa (1861-1898) lutou e, sobretudo, viveu. Filho de escravos alforriados, um pioneiro da poesia simbolista no Brasil tem agora a sua obra em um único volume: Poesia Reunida - Cruz e Sousa. “Em um país fundado em massacres, racismos, pilhagens e mentiras (...) João da Cruz e Souza foi cancelado em vida e depois de morto (...) Diante desse quadro, tomei a providência de organizar esse livro, como um ato simbólico de reparação”, explica Marcelo Ariel, organizador do volume. O livro engloba as duas principais obras do autor, Broquéis (1893) e Missal (1893), poemas iniciais, inclusive Julieta dos Santos (1883), escrito em homenagem à atriz mirim em cuja companhia dramática Cruz e Sousa trabalhou, e obras deixadas inéditas: Poemas Cambiantes e Campesinas. Ariel enaltece a editora Assírio e Alvim, de Portugal, que publica o livro na sua divisão brasileira. Ele considera que poucas editoras iriam “abraçar essa causa”. “A ideia de lucro empresarial deveria ser dissociada da ideia prática de difusão da cultura”. Similitude ao rap Ariel observa na construção de alguns poemas de Cruz e Sousa uma similaridade com o rap atual. “Na apresentação do livro, falo que Cruz e Sousa é um dos inventores do rap moderno. Os cantores de rap e funk teriam muito a aprender com ele”. É o caso, por exemplo, dos versos de Litania dos Pobres. “Os miseráveis, os rotos/São as flores dos esgotos./São espectros implacáveis/Os rotos, os miseráveis./(...) Ó pobres de ocultas chagas/Lá das longínquas plagas!/Parece que em vós há sonho/E o vosso banho é risonho”. “Falam explicitamente da condição do negro, que permanece ruim e desigual”, enfatiza. Outro exemplo é: “Bombas e tiros/No burguesismo/peludo e gordo/Diz ao cinismo/Olha que eu mordo”, do poema Cabriolismo. “Poderia estar em um disco dos Racionais MCs”, compara. Força poética e política Apesar de ter dedicado boa parte da vida às causas abolicionistas, a obra de Cruz e Sousa não se restringe às questões sociais ou raciais. Simbolista, sua poesia pinta o mundo de subjetivismo, misticismo e sugestão. Tateia o que vai por trás e além da realidade para melhor apreendê-la: pela metafísica, busca o existencial. “Ele é uma força poética e política da mesma estatura de Mallarmé (Stéphane, poeta francês, 1842-1898), Rilke (Rainer Maria, poeta austríaco, 1875-1926) e Stefan George (poeta alemão, 1868-1933). O mundo ainda irá descobrir Cruz e Sousa!”. Serviço: Cruz e Sousa - Poesia Reunida (Editora Assírio & Alvim; organização e apresentação de Marcelo Ariel; posfácio de Ronald Augusto). R\$ 249,00, em www.assirio.com.br. Vida João da Cruz e Sousa nasceu em 24 de novembro de 1961, em Florianópolis (antiga Nossa Senhora do Desterro). Filho de escravos alforriados, foi adotado pela família do ex-senhor de seus pais. Aprendeu francês, latim e grego. Em 1881, dirigiu o jornal Tribuna Popular, em que combatia a escravidão e o preconceito racial. Em 1883, foi recusado como promotor de Laguna (SC), por ser negro. Já no Rio, trabalhou como arquivista na Estrada de Ferro Central do Brasil e em vários jornais. Morreu em 19 de março de 1898, em Curral Novo (MG), onde havia sido transportado às pressas, na luta contra a tuberculose. Cruz e Sousa é patrono da cadeira 15 da Academia Catarinense de Letras. “Tudo é ancestralidade e imanência”, diz Marcelo Ariel sobre a arte negra Poeta, ensaísta, teatrólogo, nascido em Santos, que hoje mora em Cubatão, Marcelo Ariel considera que todos os escritores negros do Brasil são continuações, não só de Cruz e Souza, mas também de Solano Trindade, Machado de Assis, Carolina Maria de Jesus – e todos os que vieram antes. “Tudo é ancestralidade e imanência”. Sob esse pano de fundo, mas também a partir de uma visão ampliada de si mesmo, chega o seu novo livro de poemas, Orvalho Permanente (Editora Assírio & Alvim, R\$ 80,00), que será lançado dia 18, na Casa das Culturas de Santos. “Ademir Demarchi, crítico e poeta extraordinário, me disse algo que me iluminou: ‘O desafio é você continuar sendo você mesmo, com o mesmo ímpeto de quando começou a escrever’”, recorda. “Ouvi como em um sonho acordado: ‘O desafio é continuar sendo você enquanto é também todos os outros com o mesmo ímpeto’”. Assim, nesse livro, Marcelo Ariel enumera-se muitos. O resultado é um caleidoscópio de vida, mas que jamais deixa de remeter à origem da pele, à origem da luta. “O poema é vivo: há poemas dormindo na calçada, poemas sendo assassinados pela polícia nas favelas, poemas lendo esta entrevista... somos todos poemas!”.