[[legacy_image_356632]] Respeitável público, o circo chegou e nunca deixará de chegar. Mas há dois circos: o de lona, com pipoca, realejo e palhaço, e o da alma do artista, que existe há milênios: a arte circense. É essa tradição que a palhaça Meleca, personagem criada por Yvie Tinoco, vai honrar nesta terça-feira (14), às 14 horas, na Fábrica de Cultura de Santos (Praça dos Andradas, s/no, Cadeia Velha), no número Carrinha da Meleca. Clique aqui para seguir agora o novo canal de A Tribuna no WhatsApp! Dos chineses aos gregos, quase todas as civilizações antigas praticavam algum tipo de arte hoje associada ao circo, fosse malabarismo, palhaçada, acrobacia ou ilusionismo. Na Idade Média, a figura do bufão ou do bobo da corte remete à palhaçaria. Já as companhias de saltimbancos, aos espetáculos itinerantes. Todo esse caldo viria a formar o circo, por definição, uma reunião de várias artes. “O circo é mais plural do que a lona. A longa agregou linguagens e ajudou a cobrar ingresso. E diferente do teatro, por exemplo, que você pode ou não entender o espetáculo, o circo está mais preocupado em comunicar diretamente com o público”, analisa Yvie. “Ele é mais popular e democrático: da criança ao senhor, do rico ao pobre, o circo une todos pelo riso. Foi isso o que me fez fugir com o circo”, sorri Yvie. [[legacy_image_356633]] Circo brasileiroNo Brasil, a tradição circense, de lona e picadeiro, chegou no século 19, com famílias vindas da Europa. Mas foi se adaptando os gostos locais. O palhaço, por exemplo, ganhou características mais alegres e cômicas. Na Europa, era mais calado, com um show mais calcado na mímica e de humor sutil. Outra característica própria no Brasil diz respeito à estrutura de espetáculo, dividida em duas partes. Na primeira, estão os números clássicos associados ao circo, de trapézio, mágica, palhaçaria, malabarismo. Na segunda, o que Yvie chama de circo-teatro. “Era quase como as novelas, com personagens bem marcados, o vilão, a mocinha, o cômico. A gente vê na tevê muito do que havia no circo”. Seria, então, a tevê um grande circo com vários picadeiros? Não exatamente, Yvie frisa. Se no circo, a mesma pessoa que está pendurada no trapézio, no intervalo estará em meio ao público vendendo pipoca, na tevê a produção do espetáculo é segmentada: raramente haverá um ator também assinando o roteiro ou a direção. Nunca, assinando o cenário, por exemplo. Ou quase isso: Yvie conta que, nos anos 50, os palhaços Fuzarca e Torresmo, considerados precursores dos programas infantis na tevê, escreviam o roteiro e ainda editavam o material gravado. Mesmo com essa apropriação da tevê, Yvie considera que o circo da lona e do picadeiro não irá desaparecer. “Proibiram os animais. as cidades foram ficando sem espaço para a lona do circo, cada vez mais relegado à periferia, portanto distante do público”, enumera. “Mas o circo vai se reinventando, faz parcerias para se instalar no estacionamento de shoppings e supermercados. E até o circo-teatro, hoje, incorpora por exemplo, Homem-Aranha, Peppa Pig”. Além de tudo, para frisar: o circo não é o espaço, mas a linguagem, construída na cultura da oralidade e na proximidade com o público. “O circo é mais plural do que a lona”. Meleca, a origemYvie está com 34 anos, mas começou no teatro aos 11, ainda na escola. “Nessa época já sabia que era o que eu faria a vida toda”. Formada em Artes Cênicas e Produção Cultural, envolveu-se com o circo há 10 anos, primeiro com o malabarismo. Mas o desejo de contar histórias estimulou a alma de palhaça – porém, só após superar algumas dúvidas. “Tinha receito de me aproixomar da palhaçaria... da menor máscara do mundo, que é o nariz vermelho do palhaço”. Temores equacionados, o nome Meleca praticamente se impôs. “Era meu apelido de infância: meu pai chamava uma prima minha de princesa e eu, de meleca”, sorri. Com a simpática palhaça, Yvie apresentou no ano passado o espetáculo O Mergulho. A Carrinha de Meleca, que recria justamente uma cena clássica do palhaço Torresmo. “A Meleca me ensina todo dia. O trabalho amadurece à medida que a gente amadurece. Com a Meleca, eu tenho a permissão de me expor, de ir vivendo essa caminhada dos erros. É um ofício sagrado”.