[[legacy_image_354466]] Ela não nasceu no teatro, mas o teatro nasceu nela. Filha de um despachante aduaneiro que gostava de se aventurar na música e de uma dona de casa, a santista Neyde Veneziano tinha tudo para fazer qualquer outra coisa na vida. Ou não, como se verá. Neste sábado (4), às 20 horas, ela estará de volta à terra natal, no Teatro Guarany (Praça dos Andradas, 100, Centro), com o espetáculo Daqui Ninguém Me Tira (veja mais ao lado) – o 50º dirigido por ela. “Quando tinha seis anos, montava teatrinho no quintal de casa, na Rua Ricardo Pinto. Hoje há um prédio no lugar”, recorda. “Essas coisas vêm já daquela época”. Por ‘essas coisas’ há que se incluir também a influência dos tios maternos, que trabalhavam na área artística da Rádio Atlântica. Aliás, certa vez, mexendo com a mãe em uns baús na casa de um dos tios, encontrou uma peça de teatro. “Resolvi montar a peça no colégio. Eu estava no Stella Maris, acho que no quarto ano”. Depois, foi para o Colégio São José cursar o Ensino Médio na então modalidade ‘clássica’ – com ênfase em Filosofia e Letras. O teatro, porém, foi junto na mochila. “Quem ficou na minha classe? Jandira Martini. Quem era amiga nossa? Eliana Rocha. Resolvemos fazer um trio de jogral feminino”. Da Igreja do Embaré ao Jockey Club de São Vicente, o trio era chamado nas ocasiões mais especiais para declamar. Foi um sucesso. Terminado o Ensino Médio, o caminho natural foi o do Ensino Superior, no curso de Letras, na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, um dos embriões do que viria a ser a UniSantos. O teatro foi atrás mais uma vez – e de uma vez por todas. [[legacy_image_354467]] AmorLogo ao entrarem na faculdade, as amigas Neyde e Jandira perceberam que queriam continuar ligadas ao teatro e fazer um curso de arte dramática. Como não havia cursos do tipo constituídos, as duas organizaram a própria oficina, convidando professores da Escola de Arte Dramática, da Universidade de São Paulo (USP). Um deles foi Celso Nunes, que se tornaria amigo e parceiro de trabalho tanto de Neyde, quanto de Jandira. Além disso, no quarto ano havia um aluno chamado Carlos Alberto Soffredini, ator e dramaturgo de mão cheia. Os três se uniram ao também amigo Rubens Ewald Filho (“quase irmão”, diz Neyde) e chamaram um jovem talentoso que já tinham visto no palco, e que estudava no Colégio Canadá: Ney Latorraca. Após organizarem um show de calouros na faculdade, fundaram um grupo de teatro. “Era amador, mas não era: a gente considerava teatro universitário... e o que é teatro universitário? É o de pesquisa, de experimentação. Ninguém queria fazer teatro para ser capa de revista ou televisão. Fazíamos por amor ao teatro mesmo”. O amor ao teatro os levou a viajar até para concursos no exterior com montagens do grupo e definiu o destino de todos. Anos depois, Eliana, Latorraca e Jandira fundariam na Capital o Royal Bexiga’s Company e seguiriam em carreiras também na televisão. Neyde embrenhou-se por outras veredas. PesquisaO casamento com o dramaturgo e diretor Perito Monteiro e o nascimento da filha lhe colocaram no caminho da pesquisa e do magistério. Fez pós-doutorado e se especializou em teatro de revista e no dramaturgo italiano Dario Fo (1926-2016), tendo lançado livros sobre ambos. Com Perito, ainda morando em Santos, dirigiu vários espetáculos, entre eles a Encenação da Fundação da Vila de São Vicente. Um deles, porém, a emociona particularmente: Revisitando o Teatro de Revista, de 1988. “Ganhamos muitos prêmios e era todo mundo de Santos”. Com a morte do marido, e logo após também a da filha, que tinha Transtorno do Espectro Autista (TEA), no início dos anos 2000, mudou-se para a Capital, onde segue a sua trilha de amor pelo palco. “O teatro não está morrendo, nem vai morrer por causa de outras artes. Ele é o encontro entre duas pessoas, ao vivo: enquanto houver duas pessoas, contando uma história, você está fazendo teatro”.