Gabriel Pierin conviveu por mais de uma década com Andor Stern; ao lado, Andor no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, em 2014 (Divulgação) Há histórias que não podem ser esquecidas e há vidas que, por si só, se tornam uma lição sobre a condição humana. A de Andor Stern é uma delas. Nascido no Brasil, levado ainda criança à Hungria e arrastado pela fúria da Segunda Guerra Mundial, ele sobreviveu ao Holocausto e renasceu com a serenidade que só os que conheceram o abismo são capazes de ter. Sua jornada agora ganha um novo capítulo, talvez o mais completo, no livro Andor 83892 – Entre Caminhos e Sentidos, do historiador santista Gabriel Davi Pierin, que será lançado no próximo dia 31, às 18h, na Livraria Martins Fontes, em Santos. Mais do que uma biografia, a obra é um mergulho na força da memória e na capacidade do ser humano de se reconstruir. Com base em relatos, entrevistas e documentos inéditos, Pierin reconstrói o caminho de Andor, o menino que teve um número tatuado no braço ao ser levado ao campo de concentração e o homem que aprendeu a reerguer sua identidade dentro de si. Andor morreu em 2022, aos 94 anos. “Quem vive o Holocausto jamais sai do Holocausto”, dizia Andor, como lembra o autor, que conviveu com o sobrevivente por mais de uma década. “Sua história é um sinal de esperança no tempo atual e em qualquer tempo”, destaca Pierin. O lançamento marca a estreia de Pierin como editor e inaugura a Editora Onda Cultural, um selo que nasce com o propósito de levar conhecimento, arte e reflexão adiante, como uma onda que se espalha e transforma. Amizade que virou missão A relação entre o autor e Andor começou em 2009, quando o sobrevivente contou sua história em uma palestra na escola onde Pierin lecionava. “A partir daquele dia, percebi que ele não contava apenas uma história, ele transformava as pessoas que o ouviam”. A parceria se fortaleceu. Em 2013, Pierin passou a organizar as palestras de Andor e o desejo de registrar aquelas memórias ganhou força. Em 2014, embarcou numa jornada pela Europa para refazer o caminho de Andor, passando por Budapeste e pelos campos de concentração que marcaram sua vida. O resultado foi o primeiro livro, Uma Estrela na Escuridão (2015), centrado no período em que Andor foi prisioneiro dos nazistas. Em 2023, veio Depois da Escuridão, que abordou sua vida após a guerra. Agora, Andor 83892 – Entre Caminhos e Sentidos reúne as duas fases e acrescenta reflexões inéditas, obra que Pierin chama de “definitiva”. “Esse livro contempla toda a trajetória dele, do nascimento à morte. Além da história, há mapas ilustrados, documentos do cárcere e fotos preservadas por ele, inclusive um álbum que resistiu ao tempo e à guerra”. Entre caminhos e sentidos O subtítulo do livro não é por acaso. “Entre caminhos e sentidos” traduz o eixo simbólico da narrativa: uma jornada física, mas também existencial. “Os caminhos que a vida nos conduz dialogam com os sentidos que ela nos traz”, diz Pierin, que cita o psiquiatra Viktor Frankl, também sobrevivente de campos de concentração, como inspiração indireta. "A experiência do Holocausto é transformadora. Ela nos faz repensar o que é realmente essencial”. O livro combina rigor histórico com emoção. As descrições dos campos, dos deslocamentos forçados e do cotidiano sob o terror nazista são intercaladas por reflexões do próprio Andor e por anotações de Pierin, criando um diálogo entre o passado e o presente. Memória viva “Estamos diante de uma geração que está se despedindo. Daqui a poucos anos, não haverá mais sobreviventes deste período vivos. O que resta é o compromisso de educar sem a presença deles”. Essa consciência tornou o projeto um manifesto educativo. “Se é possível implantar o ódio, também é possível educar pela paz e pelo amor”, diz o historiador. “O objetivo é formar cidadãos pela educação e pela paz. É perpetuar a memória de Andor como símbolo de todos que viveram o Holocausto.” A perspectiva brasileira também torna a história única. Nascido em São Paulo, Andor foi levado ainda pequeno para a Hungria, onde sua família foi aprisionada. “Ele nos mostra que o Holocausto não é um passado remoto, congelado há 80 anos. É um alerta constante. As mesmas condições que permitiram o surgimento do ódio naquela época ainda estão entre nós”, ressalta o autor. O homem que escolheu a vida Apesar de tudo o que viveu, Andor jamais se deixou consumir pela dor. “Ele encontrou a paz na reconstrução da família”. Após a guerra, voltou ao Brasil, estudou, trabalhou, casou, teve filhos e netos. Viu o mundo mudar, e, já idoso, atravessou com lucidez a pandemia. “Ele dizia que, se formos honestos com nós mesmos, perceberemos que a vida tende ao equilíbrio. Apesar de tudo, ele se sentia recompensado”, relata Pierin. Mesmo aos 90 anos, Andor seguia com planos: dirigia, trabalhava, viajava todos os anos, sonhava. “Ele não vivia os últimos dias de vida, mas sempre o primeiro que lhe restava”. Essa filosofia de vida atravessa o livro e inspira. “Andor transformou sofrimento em sabedoria. Sua história é um sinal de esperança em qualquer tempo”. (Divulgação) Lançamento Andor 83892 – Entre Caminhos e Sentidos Editora: Onda Cultural Lançamento: dia 31, a partir das 18 horas, na Livraria Martins Fontes (Avenida Ana Costa, 530, Gonzaga, Santos)