Dar nome ao carro erve como um canal simbólico de diálogo, que promove conforto psicológico (Divulgação) Você já conheceu alguém que chama o carro de "Bebel", o notebook de "Toninho" ou até o ventilador de "Galego"? Pode parecer engraçado à primeira vista, mas a prática de dar nome a objetos inanimados — uma atitude mais comum do que se imagina — tem base em mecanismos profundos da mente humana. Estudos em psicologia, neurociência e comportamento social indicam que batizar um item é, na verdade, uma forma de criar vínculos emocionais, exercer controle e até reduzir a solidão. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! De acordo com especialistas, esse comportamento está ligado a um fenômeno chamado antropomorfismo — a tendência humana de atribuir características humanas a objetos, animais e até conceitos abstratos. Quando damos um nome a um carro ou celular, estamos tornando aquele objeto mais próximo, quase como um companheiro. Isso ajuda a criar uma relação afetiva e até a cuidar melhor dele. Pesquisadores da Universidade de Chicago observaram que esse hábito se intensifica em situações de isolamento, luto ou estresse emocional. Durante a pandemia de Covid-19, por exemplo, aumentou o número de pessoas que deram nome a plantas, robôs aspiradores e até geladeiras. O nome serve como um canal simbólico de diálogo, que promove conforto psicológico. É uma maneira de transformar o impessoal em familiar. No caso dos automóveis, a prática é ainda mais forte. Um estudo realizado pela University of Vienna com motoristas austríacos revelou que cerca de 48% das pessoas entrevistadas já tinham nomeado seus carros, e mais de 30% afirmaram conversar com eles. Não por acaso, fabricantes também aproveitam esse vínculo: modelos com nomes próprios — como "Renault Zoe", "Chevrolet Onix" ou "Fiat Mobi" — tendem a gerar maior identificação emocional com o consumidor do que os com códigos frios, como X5 ou C3. Mas por que isso acontece? Segundo especialistas da Northeastern University, o cérebro humano é orientado à criação de narrativas. Quando você nomeia um objeto, você ativa áreas do cérebro responsáveis por linguagem, memória afetiva e empatia. Isso facilita o reconhecimento e a convivência diária com aquele item. Em resumo, dar um nome transforma o objeto em 'algo significativo’ para o cérebro. Além disso, nomear algo é uma forma de expressar identidade e criatividade. Um celular chamado “Carminha” pode indicar humor e personalidade do dono. Um carro apelidado de “Guerreiro” pode revelar o valor simbólico daquele bem conquistado com esforço. Até entre crianças, dar nomes a brinquedos ou roupas é parte essencial do desenvolvimento da imaginação e da noção de posse. Para a psicanálise, esse impulso também pode ser interpretado como projeção emocional: ao dar nome, projetamos no objeto aspectos nossos — medos, desejos, afeto. Por isso, perder um carro com nome ou um celular batizado pode causar dor além da perda material: é como se um vínculo fosse rompido. Seja por afeto, hábito, humor ou necessidade de controle emocional, dar nomes a coisas é uma forma genuinamente humana de tornar o mundo mais compreensível e afetivo. E se o seu carro tem nome, não se preocupe: você está apenas sendo… humano.