Um dos pontos altos das filmagens, segundo a equipe e atores, foi a presença das crianças no set: alegria, espontaneidade e desafios (Divulgação) A premissa é simples: Fred (Rafael Infante) acha que a vida da esposa é moleza. Diz isso em voz alta. E Roberta (Dani Calabresa), em vez de engolir, responde à altura: decide passar as férias, sem o marido e os filhos, na Bahia. É hora do pai se virar. É com essa virada que começa Um Pai em Apuros, comédia brasileira dirigida por Carol Durão, nos cinemas da Baixada Santista. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O longa é uma adaptação de Mama se Fue de Viaje (2017), sucesso argentino do diretor Ariel Winograd. Mas a versão brasileira fez questão de construir um caminho próprio — e começou já no roteiro, assinado por Fil Braz, o mesmo de Minha Mãe é Uma Peça e Tô Ryca. “O roteiro já chegou trazendo um elemento muito brasileiro, que é essa viagem da mãe ser para Salvador”, conta Carol Durão. Calabresa e Infante, aliás, nem assistiram ao original antes de gravar. Uma escolha deliberada. “A gente não quer se comparar, não queria imitar”, explicou Dani. “É legal criar do zero”. Infante completou que “dá agonia isso” de assistir ao original e ter vontade de imitar. Sobrecarga Se a comédia é o veículo, o tema é sério — e atual. O filme coloca em cena algo que muitas famílias vivem sem nomear: a sobrecarga invisível da mãe, aquela que organiza a vida de todo mundo enquanto ninguém percebe que ela está afundando. “A Roberta ama a família, ama os filhos, mas ela parou de ser vista”, diz Calabresa. “Nem ela mesma percebia que estava sendo drenada. Então a irmã faz essa proposta de viajar, salvando e transformando tudo. O casamento, a família, a dinâmica toda”. Para a atriz, a atitude de Roberta é, acima de tudo, inspiradora. “A gente é criada pra achar que a mãe é responsável por tudo. Mas essa personagem se coloca em primeiro lugar”, contextualiza. “Claro que tem culpa, porque tem muito amor. Mas esse movimento fez com que o Fred se colocasse no lugar dela e visse o perrengue que é cuidar de quatro crianças sozinho”. Infante, que é pai na vida real, admite que a vivência pessoal entrou em campo na construção do personagem. “Eu sendo pai, já passei muitos perrengues. Já não percebi perrengues que a minha companheira estava passando. Essa vivência, com certeza, foi emprestada para as emoções do Fred”, diz. “Ser pai não é ajudar. É participar ativamente da criação e dividir as tarefas”. O caos produtivo A convivência entre o elenco foi cultivada antes das gravações, e o resultado aparece na tela. “No final da gravação era aquele choro — vai acabar, a gente vai se separar”, lembra a diretora. “Eles realmente pareciam uma família no set”. Há ainda um detalhe que deu à história uma camada extra de verdade: Lara Infante, que interpreta Clarice, a filha de oito anos do protagonista, é filha de Rafael na vida real. “Foi lindo ver o talento dela desabrochando”, disse o ator, emocionado. “Mas eu tinha um desafio pessoal: tentar não ser o pai de verdade dela. Ser uma colega de trabalho”. O humor como espelho Diretora também de Doce Família (2022), outra adaptação de um longa latino-americano, Carol Durão vem construindo uma filmografia em que a comédia serve de lente para questões reais. Em Um Pai em Apuros, essa intenção é declarada. “A vantagem de contar histórias é que você consegue falar sobre temas que nem sempre são simples de uma maneira muito visual”, diz ela. “Em vez de só teorizar, a gente vai mostrar como é a vida da Roberta, como estava sendo difícil, e como a vida do Fred se torna difícil sem ela. A partir de uma história que faz graça sobre isso, a gente consegue fazer com que as pessoas reflitam”. O resultado, segundo a diretora, é um filme “divertido e solar, feito para toda a família rir, se reconhecer na tela e sair do cinema com o coração leve”. Calabresa concorda — e aproveita para jogar mais uma camada. “Pode ser um momento para rever os combinados dos casais”, sugere. “A gente é criada pra achar que a mãe vai dar conta de tudo. Mas o filme mostra a sobrecarga da mulher, e com humor, pra chamar todo mundo pra pensar”. Bebê a bordo Uma das apostas mais arriscadas – e bem-sucedidas – do filme foi escalar um elenco mirim robusto. Além das crianças maiores, há um bebê de menos de dois anos em cena, papel dividido pelos gêmeos Caio e Pedro Costa. A diretora Carol Durão é enfática sobre o trabalho de preparação. “A gente sabia da importância de ter um elenco mirim forte, porque eles estavam, na maioria das cenas, com o Rafael Infante o tempo todo”. A dinâmica com o bebê era desafiadora. “Quando a gente tem comediantes experientes como a Dani (Calabresa) e o Rafa (Infante) reagindo ao bebê, isso vira uma brincadeira de improviso”, conta Durão. “Muitas coisas o Rafa conseguia pegar e criar em cima do que o bebê estava fazendo”.