Arquiteto, para ele escrever é uma forma de entender o mundo (Divulgação) Uma tragédia familiar, em vez de calar a voz, para Toni Grado virou palavra. O resultado mais recente desse quase grito de vida materializou-se em Não Branco, Não Homem, série de quatro livros (Nine Editorial, o primeiro foi lançado em 2021, o último virá à luz ano que vem). Mas esta história começou em 1988, com a morte prematura de sua irmã mais velha. “A experiência que eu tenho (da morte dela) é típica do inconsciente. Não me vi tendo reações exaltadas, o modo como reagi foi menor do que a situação trágica”. Mas não passou incólume. Começou a perceber mudanças em si. Sofreu uma pneumonia dupla. Após dois anos da morte, começou um trabalho de depuração psicanalítica que o ajudou a desbloquear sensações. “Na época, não tive essa noção, mas posso dizer hoje que foi o motor para começar a escrever de maneira mais séria”, recorda. “Ao perceber meu inconsciente gritando, foi um estímulo para o autoexame, o autoexpurgo. Foi a necessidade de escrever mais, a partir de algo mais robusto”. O resultado dessa primeira incursão foi uma peça de teatro, A Saga de Félix Fars, de 1994, que conquistou o 3º lugar em um concurso estadual de dramaturgia do Sesi. Mais duas peças de teatro e a série Não Branco Não Homem se impôs. descoberta sobre si Toni, hoje com 64 anos, escreve desde os 15 anos, quando “preenchia cadernos e cadernos” sem ordem ou método, numa ânsia de apreender o mundo. Fruto do interesse primeiro por Filosofia, que antecedeu à ficção. Predileção por sua vez herdada da mãe, formada em Filosofia, Direito e Psicologia. “Cresci no meio dos livros, em uma grande biblioteca, que ela já havia herdado de minha avó”. Assim, Não Branco Não Homem nasceria sobretudo da leitura filosófica (incluindo a psicanalítica e a mitológica). Mas apenas como pano de fundo. “A ideia de fazer uma ficção em que nada disso (Filosofia, Psicologia) está óbvio, é maravilhoso. É esconder tudo isso: os personagens têm que ter vida, não podem ser papagaios de teorias quaisquer”. Nesse transe, levou 20 anos: 12 anos em estudos preparatórios e outros oito, de 2009 a 2017, escrevendo. “Gasto mais tempo editando do que escrevendo”. As artes se entrelaçam. Músico (toca piano desde os 19 anos) e arquiteto por formação, a escrita é paixão e necessidade. “Minha cabeça funciona melhor mixando linguagens: penso melhor literatura pela arquitetura; vou usar a escrita para uma inspiração musical. A parte estrutural do romance demandou um esforço muito grande. Parece mesmo fazer um edifício, com base, alicerce, fundações”. A obra Não Branco Não Homem apresenta múltiplos enredos interligados e começa com Algarismo, um bancário solitário de meia-idade, corroído pela culpa da morte da mãe, que morreu sufocada enquanto ele dormia. Apaixonado por Filosofia, adota as ideias do grego Parmênides e passa a ver o movimento e o vazio como ilusões. Querendo escapar da rotina, pretende desviar dinheiro de um fundo para órfãos africanos, mas é surpreendido por Número 17, uma entidade misteriosa entre anjo e demônio.