A Califórnia brasileira. É como Santos ficou conhecida nos anos 90 em publicações musicais da Capital. A referência ao estado norte-americano tem duas razões que se dão as mãos: a efervescência da cena hardcore e a proximidade do mar. Tanto lá como cá, a juventude surfou na onda – sem trocadilhos – do gênero nascido do punk rock, ainda nos anos 80. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! “A gente era meio que pioneiro, ia pavimentando o caminho do estilo musical. Não havia um circuito bem estruturado para as bandas fazerem uma turnê por todo o Brasil”, recorda o baixista Fabrício de Souza. Ele é um dos fundadores da Garage Fuzz, banda que está completando 35 anos de estrada com um novo álbum, o EP Powerplant. Se os sonhos do Garage começaram em 1991, foi apenas três anos depois que o primeiro deles virou realidade: gravar. O disco de estreia saiu em 1994, pela gravadora Roadrunner, especialista em heavy metal, que voltou os olhos ao Brasil após o sucesso internacional do Sepultura, nos anos 80. “Como não havia estrutura e circuito de shows para o gênero, eles fizeram uma proposta”, recorda Fabrício. “A gente libera o telefone da gravadora”, disseram. Naquele tempo não tinha internet, a conta de telefone era cara. “Eu ia lá uma vez por semana, ficava contatando gente de todo o Brasil, ‘Olha, temos um disco, a gravadora paga nossa passagem, consegue um show por aí?’”. Os contatados eram jovens como eles, fãs do gênero, que mantinham, por exemplo, fanzines sobre o hardcore. “A gente foi pavimentando, criando um circuito que não existia”. Hoje em dia, a cena está estabelecida. Muitos daqueles jovens que antes publicavam fanzines artesanais, hoje são promotores de shows pelo Brasil. “Várias bandas, mesmo no esquema alternativo, conseguem tocar em casas boas, com esquema profissional”. Sobe e desce Depois de florescer, a cena hardcore desbotou no final da primeira década dos anos 2000. O hardcore já estava estabelecido no mainstream, muito por causa de bandas como Green Day e Offspring – ambas da Califórnia, criadas ainda nos anos 80. Veio a pandemia. Depois, a reabertura foi frutífera para o gênero. “Voltou com mais público, mais bandas. Não era mais mainstream, voltou a ser algo inerente à cena, as pessoas queriam fazer o hardcore. Talvez os anos de angústia, de quarentena, da polarização política, tenham trazido uma força para o estilo”. Powerplant Os tempos do telefone na gravadora e das músicas em fitas cassete ficaram para trás. Hoje, aos 53 anos, Fabrício não sente tanta saudade dessa parte, digamos, ‘romântica’. “É bom produzir com o computador: você já passa para os outros integrantes e leva tudo adiantado (ao estúdio). Antes, tinha que reunir e ensaiar”. Além de Fabrício, a formação atual da banda tem Nando Bassetto (guitarra), Wagner Reis (guitarra), Daniel Siqueira (bateria) e Victor Franciscon (vocal). Powerplant, o décimo trabalho de estúdio, chega na nova proposta dos tempos: um EP com cinco músicas. “Aproveitar essa dinâmica do mundo atual, tem que ter uma novidade sempre. A gente tem abraçado o formato do EP”. Para o ano que vem, está na mira um novo DVD. “E estamos na esperança de uma turnê na Europa”. O ritmo é o core “Todo mundo tinha banda. Quem não tinha, conhecia alguém que tinha”, recorda Matheus Krempel, vocalista e fundador da The Bombers, que está com o álbum ao vivo Noite Alucinante, e em meio a uma turnê pelo sul do Brasil, Uruguai e Argentina, para celebrar os 30 anos de história. “Dia desses, vi um vídeo dos Rolling Stones gravando o novo disco. Aqueles senhores de 80 e poucos anos fazendo piada um com o outro no estúdio. Comentei com a banda: ‘Quero isso aí, quero fazer música com< vocês para o resto da vida”, diz Matheus Krempel, vocalista do The Bombers (Divulgação) A banda também é uma das que nasceram no movimento do hardcore e punk rock dos anos 90. “Santos era uma das capitais do gênero”, enfatiza. “Havia a MTV. As bandas tinham abertura lá: Dead Fish, Mukeka di Rato, Blind Piggies, CPM22 e tantas... passando clipe, houve muita exposição”. Matheus citou bandas de todo o Brasil – a Mukeka di Rato, por exemplo, é de Vila Velha, Espírito Santo. Por aqui, além de Garage Fuzz e The Bombers, destacam-se ainda Psychyc Possessor, Safari Hamburgers, White Frogs, Sonic Sex Panic e Abuso Sonoro. Renovação Mas ele também sente que essa força arrefeceu na Cidade: da falta de espaços de show próprios a falta de renovação de bandas (todas as citadas acima são dos anos 90). “Em São Paulo ainda tem cena forte, com muitas casas de show”, avalia. “Mas hoje (em Santos) é quase uma resistência, tanto para o público quanto para as bandas”. A resistência é quase quixotesca. O próprio Matheus organizou a turnê pelo sul do Brasil, Argentina e Uruguai. Trabalho de formiga, procurando agitadores culturais, organizadores, produtores – as pessoas envolvidas no cenário independente. E renasce a esperança. “Ainda tem muita gente envolvida com isso”. Graças isso, hoje, por exemplo, a The Bombers toca em Buenos Aires. ”Sonhos não envelhecem” Tá certo, a frase acima é da canção Clube da Esquina no 2, de Milton Nascimento. Mas seja na MPB ou no hardcore, o humano sempre fala mais alto. Nos anos 90 e 2000, Matheus relembra: todo mundo queria viver de música. Prevalece hoje o senso de comunidade, que permite ao The Bombers, por exemplo, essa turnê. Os sonhos incluem as influências. As inspirações. Cita The Clash. Os Rolling Stones. Dos mais atuais: Rancid. “As bandas que sempre buscaram evolução, mudam ao longo do tempo. Havia artistas que tinham essa linha de querer evoluir, mas em certo momento estagnaram e eu me desinteressei”. Matheus vê a banda como uma esponja: absorve tudo. Dele, do punk de 1977 ao rock clássico; de Fernando Hago (baixo), o hardcore melódico; de Gustavo Trivela (guitarra), a MPB; de Junior Drummer, mais punk rock, hardcore e rap. “A gente sempre dá um jeito de colocar tudo na banda”. Para o futuro próximo, o ano que vem, talvez traga um novo disco para a banda e nova turnê. “Estou com 47 anos. Em 30 anos, estaria com 77. Talvez não consiga dar pulos no palco, correndo como hoje, mas com certeza me vejo fazendo isso”. Documentário Está disponível no YouTube (acesse) o documentário Califórnia Brasileira - O Hardcore Punk em Santos, de 1991 a 1999. Dirigido por Rodiney Assunção e Wladimyr Cruz e lançado em 2017, o filme, de quase duas horas, apresenta um panorama da época e das bandas, com muitos personagens.